Revolução de Abril. O sonho (ainda) comanda a vida

O historiador Rogério Coito conta como se viveram, no Cartaxo, os primeiros tempos depois da revolução dos cravos

Eles não sabem, nem sonham…

Os versos de António Gedeão cantados e soprados em vários tons eram dos mais divulgados aí pelos princípios dos anos 70 do século passado, especialmente depois da abertura marcelista ter permitido que fosse apresentado na televisão um programa que dava pelo nome de Zip-Zip, onde o poema da Pedra Filosofal alastrava em surdina como um eco adormecido. Daí que, na madrugada de 25 de Abril de 74, quando se começaram a ouvir canções que estavam proibidas e a revolução saiu dos quartéis guiada pelos militares do M.F.A. o povo correu à rua de cravo na mão cantando e sonhando que uma nova era iria surgir para a sociedade portuguesa em geral e para a vida de cada um em particular.

O Cartaxo viu passar as chaimites de Salgueiro Maia a caminho de Lisboa e passou a escutar na rádio e a ver a na televisão o novo mundo a abrir-se e a assistir ao acelerar da História cada dia que passava. A primeira sessão democrática no Cartaxo aconteceu a 25 de Junho de 1974, no salão da antiga sede da Sociedade Filarmónica Cartaxense, completamente esgotado. Na mesa estiveram entre outros; Piteira Santos, Manuel Alegre e o professor Hélder Travado indigitado pela Junta de Salvação Nacional para presidir à Comissão Administrativa que iria gerir o Município até à realização de eleições. Acabava a guerra colonial em três frentes e nascia a liberdade. De falar e de reunir ou de reivindicar sem ser preso. A temível polícia política era extinta e os apêndices legionários idem. A Censura já não cortava a raiz ao pensamento. Salgueiro Maia, talvez o mais puro capitão de Abril e que é hoje Nome de Rua no Cartaxo, passou a ser visita do lugar onde tinha amizades que, por sua vez, o envolveriam no projecto chamado Jardim de Infância sabendo do seu interesse no enquadramento social da comunidade. De tudo se falava com a Democracia em pano de fundo. O Poder Local era então uma bandeira desfraldada desse Abril regenerador. Os homens e mulheres aprendiam política, tantos anos negada e começavam a ter opinião do ter e do ser e dos engenhos e artifícios da politiquice.

Os tempos rolaram e muita água correu sob as pontes. Alguns já partiram desta vida sem terem tido o seu pedaço de felicidade. Outros ainda aguardam sentados no desencanto. Mas há os que embrulham a coragem, pegam nos seus desempregos, injuriam as tranches e as ditaduras dos mercados de capital renegam a austeridade e partem em busca de melhores dias. Para trás ficam os planos adiados na sua terra e as saudades do futuro. Passados quarenta anos o sonho ainda pode comandar a vida como nos tempos em que se cantava em surdina porque como diria Fernando Pessoa cada Homem (e cada Mulher) transporta sempre consigo todos os sonhos do mundo.


Na foto: a primeira sessão de esclarecimento democrático realizou-se, a 25 de Junho de 1974, na sede Sociedade Filarmónica Cartaxense, que então funcionava na Rua José Ribeiro da Costa, com a presença de Manuel Alegre, Piteira Santos e Castro Guerra. Esta sessão foi organizada pela Comissão promotora dos Centros Populares 25 de Abril, que aqui no Cartaxo foram dinamizados por Rogério Coito, Renato Campos e Maria José Campos (sentados na primeira fila, ao centro)


Texto, da autoria do historiador Rogério Coito, publicado na edição impressa da revista DADA (nº49), em abril de 2014, por ocasião das celebrações dos 40 anos do 25 de Abril

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