Uma risada numa tragédia de Marcelino Mesquita

Por Rogério Coito, Historiador

 

Na dramaturgia portuguesa a obra “Dor Suprema” de Marcelino Mesquita ombreia com a peça de Garrett “Frei Luis de Sousa”. Representada por grandes nomes da cena portuguesa como os actores Virgínia, Ângela Pinto ou João Rosa, enchia os teatros em finais do século XIX inícios do século XX, chegando a ser escolhida durante muitos anos para exercício final de curso no Conservatório Nacional. A “Dor Suprema” é uma tragédia burguesa em três actos, arrepiante, decalcada na dor de um pai e de uma mãe que ao morrer-lhes a jovem filha, resolvem suicidar-se. Como Marcelino era médico descreveu os preparativos do suicídio aos pormenores, com os actores em palco acendendo um fogareiro e calafetando as janelas para queimarem o oxigénio e morrerem por inacção. Tudo acompanhado com um texto de intenso clímax dramático que punha as plateias a chorar.

Mas um dia, no velho teatro Condes em Lisboa, aconteceu um imprevisto. As temporadas de contrato dos actores eram de oito meses e nos quatro meses de inactividade, os que não iam ao Brasil, constituíam-se em companhias itinerantes para irem pela província ou na capital fazerem alguns espectáculos. E uma das peças que garantia o êxito de bilheteira era sem dúvida a “Dor Suprema”. E uma pequena companhia com actores pouco conhecidos assim fez. Faltava-lhes porém a autorização do autor que estava na sua Quinta da Ribeira, em Pontével. Mas conseguiram o contacto e a resposta não se fez esperar. Que contactassem a Livraria Francisco Franco, em Lisboa, a quem ele tinha vendido todos os direitos de autor. E assim fizeram. Pagaram 10 tostões por cada acto e a peça subiu à cena. No dia da representação no entanto, descobriram meio escondido junto ao palco, Marcelino Mesquita. Ficaram em pânico temendo as comparações. Iniciaram a representação trémulos, vão ganhando confiança e chegaram à cena do fogareiro para a qual o autor tinha dado indicações precisas para sugestionar dolorosamente os espectadores: “Um fogareiro, um bocado de jornal, um pouco de palha, tapam-se todas as fendas e frinchas (…) a palha arde, o lume fica”. Uma cena esmagadora com um crescendo de violência emocional, com os dois principais actores a arrastarem-se e a morrer em cena.

Conta Romualdo Figueiredo que simplesmente naquela noite a sala encheu-se de fumo, os espectadores começaram a tossir e a autoridade policial resolveu intervir, cumprindo o regulamento que não se pode fazer lume no palco. E na altura em que os protagonistas estão no estertor da morte para terminar o seu calvário doloroso, uma porta do palco abre-se e aparece o comissário acompanhado de um subordinado e levam o fogareiro. Foi uma gargalhada geral. E para a cena ser mais hilariante, com a porta do fundo escancarada, os dois protagonistas continuaram a “morrer completamente asfixiados”.

Marcelino Mesquita, com o orgulho de dramaturgo ferido, fugiu dali tão rapidamente que durante uns tempos ninguém o viu.

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