Sai o velho, entra o novo

Crónica de Vânia Calado

Roda o ano num dia igual ao último tal como se espera para o que se segue. Uma meia-noite sem festejo num dia que se quer de trabalho como todos os outros. Nada de diferente, tudo por igual.

Para-se dois minutos, entre o acender o fogo da lareira e o levar as brasas para dar conforto ao quarto, e ficamos a lembrar. Dos que já cá não estão, que nos deixaram de braços vazios quando o Senhor os chamou para o seu lado. Dos que vieram, que o seu choro não nos deixa esquecer que cá ficar ainda é uma benção. Que Deus nos dê aquilo que aguentamos e que se mantenha connosco. É o que se pede nesta noite e em todas as outras.

Quando se dá a volta ao terço, com as contas a rodar nos dedos nervosos a cada Avé-Maria e Pai Nosso, de joelhos à beira da cama. A pedir que olhe por nós, pelos nossos. Redobramos o pedido naquela noite, porque entra um novo ano, seja lá isso o que for.

É Janeiro outra vez, essa é que é a verdade. São os campos a morrer debaixo da geada que cai mais forte e as colheitas a irem com o vento quando ele sopra lá de Norte e leva o que temos. Vai o comer, o trabalho, o dinheiro. Que Deus olhe por nós se este ano for como aquele em que o vento se juntou lá em cima e veio por aí a baixo, em remoinho, a levar tudo o que encontrou. Até a vida. Foram dois a enterrar depois do vendaval, nenhum lá de casa, mas a porta ao lado é como se fosse nossa.

Que nós, homens, podemos muito, mas o que Deus dá, Deus tira se assim o entender e os seus desígnios são para aceitar, mesmo quando não os percebemos. Principalmente, quando não os entendemos. Quem olha por nós, omnipotente e omnipresente, sabe de todos e de tudo e nós, pobres almas pecadoras, não temos saber que se compare. Temos os pés descalços e as mão calejadas. A pele a gretar do frio e o estômago a roncar a maior parte do tempo.

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Entra novo ano daqui a pouco, dizem eles. Os entendidos. Para nós, é só o calendário a voltar ao início e os dias a repetirem-se. Que venha lá o novo, que nos traga o que tiver reservado para nós. E que o velho se vá, que as suas misérias fiquem com ele e nós cá nos vamos arranjado.

Ide em paz, é o que é.


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