Serralharia artística – compreender a arte de Vulcano, para valorizar peças (quase) eternas

Bagos da Memória, por Pedro Gaurim

Desde sempre ouvi as pessoas mais antigas referirem que o Cartaxo era terra de muitos e bons artífices, que não só produziam para o mercado local mas também para um mercado mais alargado. Prova disso, foi a criação do Grémio Artístico Cartaxense, ainda no século XIX e o seu museu de miniaturas já do século XX, com peças que traduzem o bem saber fazer de alguns dos muitos ofícios existentes.

Nos últimos anos, no centro histórico do Cartaxo, a renovação do edificado tem feito desaparecer alguns gradeamentos de varanda, boas obras de arte de serralharia artística, diminuindo o valor artístico e patrimonial do conjunto urbano e o testemunho dessa Era de Ouro dos artificies do Cartaxo. Na particularidade do município, este valor é dado, não exclusivamente, mas principalmente, pela existência e efeito visual das artes decorativas aplicadas à arquitectura: azulejaria, cerâmica, cantarias decorativas e os mais belos exemplos da arte de Vulcano, deus do fogo, chamados ferros de arte ou serralharia artística. Outrora, fizeram parte deste conjunto as muitas peças de carpintaria artística (portas e janelas), que na sua maioria já se perderam.

Grades de varanda de modelo barroco, datáveis do século XVIII, Rua Mouzinho de Albuquerque

 

Ferros datados
Além da beleza que dão às fachadas, transformando frequentemente as ruas em museus a céu aberto, boa parte destes elementos do edificado ajudam os historiadores a datar a arquitectura e o encomendante, respectivamente, porque apresentam as datas ou vincadas características formais, e apresentam siglas com as iniciais dos nomes dos antigos proprietários. De modo geral, hoje na cidade do Cartaxo, subsiste serralharia artística, datável, do barroco de finais do século XVIII à Arte Dèco da década de 1930.

Grade de respiradouro de escada, datada de 1840, Rua Mouzinho de Albuquerque

O trabalho de ferro datado mais antigo que e visível no Cartaxo, deverá ser o de uma grade de janela, que serve de respirador de escada, datado de 1840 (R. Mouzinho de Albuquerque, 43), seguindo-se o do portão do cemitério (1878), e algumas bandeiras de portão (1876, Casa Cunha 13), o portão da LavriCartaxo (1923, Rua Batalhós, 79), o portão de ABP-1924 (Augusto Batista Pego, Rua Dr. Manuel Gomes da Silva, 5) e o do Casal da Boavista, FBC-1926 (Rua da Boavista, 33). Pena que os belíssimos exemplares das quintas do São Gil e de Santa Eulália não se encontram datados, mas podem bem ser, ainda, da primeira metade do século XIX.

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O Cartaxo e as suas freguesias têm assim, umas boas toneladas de ferro, suspensas nas suas fachadas, que muito trabalho e mestria exigiram aos operários artificies, que tendo sido um investimento no embelezamento dos edifícios, constituem hoje uma herança cultural que deveria ser preservada, mediante regulamento municipal de protecção de fachadas com determinadas características.


Imagem em destaque: Grades de varanda de modelo barroco, datáveis do século XVIII, Rua José Ribeiro da Costa

*O autor escreve segundo a antiga grafia. Texto publicado na edição impressa do Jornal de Cá de agosto

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