Somos menos, mais velhos e mais pobres

Os cartaxeiros estão mais pobres. Além de receberem menos que a média nacional, também o seu património vale menos. Além disso, apesar de sermos menos, há mais velhos que jovens, nascem menos crianças e casamos menos. Dados importantes para compreendermos o concelho que hoje temos.

Os números não enganam: o Cartaxo, à semelhança do que vem acontecendo no País e até no mundo, tem vindo a sofrer alterações.

Se fizermos a comparação entre 2010 e 2018, as diferenças são bem evidentes. Foi o que fez a PORDATA, projeto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, como forma de celebrar o seu 10º aniversário, apresentando um estudo que caracteriza os municípios através de 54 indicadores, assente em mais de 20 entidades oficias*.

O Município do Cartaxo tinha, em 2018, 23 798 habitantes, ou seja, menos 687 habitantes que em 2010 (24 485) e, por isso, a densidade populacional também diminuiu. Quer isto dizer que em 2010 viviam, em média, 154,8 indivíduos por quilómetro quadrado; em 2018, essa média passou para 150,5. Em sentido inverso, o número de alojamentos familiares clássicos aumentou. Em 2010 era de 13 208 e em 2018, 13 535 (valor preliminar). Ou seja, foram construídas casas que ainda hoje continuam vazias.

Dos 23 798 habitantes do concelho, 2,6 por cento (627) eram estrangeiros (eram 4,2 por cento em 2010, correspondendo a 1 027 pessoas), ou seja, por cada cem residentes no concelho, três eram de outras nacionalidades.

Mas os dados demográficos não se ficam por aqui. Também o Cartaxo reflete a tendência da maioria dos países e regiões ditos desenvolvidos no que respeita à proporção de jovens, população em idade ativa e idosos. Senão, vejamos: em 2018, por cada cem residentes existiam 13 jovens com menos de 15 anos, 65 adultos e 23 idosos com 65 ou mais anos. Já em 2010 tínhamos mais jovens até 15 anos (15 por cada cem habitantes), 65 pessoas em idade ativa e 20 idosos (65 ou mais anos). Resumindo, o Cartaxo está a ficar envelhecido. Comparando só os mais jovens e os mais velhos, o concelho do Cartaxo tinha, em 2018, 175 idosos por cada cem jovens, mais 18 pessoas com 65 ou mais anos que a média nacional. Assim, o índice de envelhecimento passou de 135, em 2010, para 175, em 2018.
Já os óbitos pouco aumentaram nestes oito anos em apreço: de 305, em 2010, passaram para 320, em 2018, e o saldo natural, ou seja, a diferença entre nascimentos e óbitos, passou de -87 em 2010 para -148 em 2018.

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Como é fácil perceber, o número de nascimentos também diminuiu. Em 2010, esse número situava-se nos 218; em 2018 ficava-se pelos 172.

A quebra nos nascimentos também é visível no número de alunos nas escolas do concelho. Ao passo que em 2010 existiam 3 772 alunos nos diversos níveis de ensino disponíveis no concelho, em 2018 esse número diminuiu para 3 175 (menos 597 alunos).

Também o número de casamentos diminuiu, embora todos saibamos que as relações mudaram e, presentemente, muitos são os casais que optam por não ‘assinar o papel’, embora vivam juntos. Em 2010 registaram-se 115 casamentos, quase o dobro dos registados em 2018 (61). No que respeita aos divórcios, 2010 fechou com 92 divórcios, e o número provisório de divórcios em 2018 é de 41.

Um dado positivo é o que respeita à criminalidade, que desceu neste período. Em 2010 foram registados 34,1 crimes por mil habitantes; em 2018, o número baixou para 26.

Economia
O concelho do Cartaxo está mais pobre. Essa conclusão é facilmente retirada de alguns indicadores presentes neste estudo.

No que respeita ao vencimento médio dos trabalhadores por conta de outrem, os cartaxeiros ganhavam, em 2018, 1 008 euros, menos 159 euros que a média nacional, apesar de ganharem mais que em 2010 (944 euros).

Além disso, em 2018 o património dos cartaxeiros valia menos que em 2010. Dados relativos ao preço do metro quadrado para habitação revelam que o metro quadrado das casas valia, em 2010, 1 084 euros. Em 2018, o mesmo metro quadrado valia, segundo as avaliações bancárias, 927 euros, 265 euros inferior à média nacional. Os bancos também abandonaram o concelho neste período de oito anos. De 12 instituições bancárias em 2010 passámos para oito em 2018, o mesmo acontecendo com as caixas multibanco ao serviço da população – eram 32 e passaram a 25, obrigando, muitas vezes, a população a deslocar-se a outras freguesias ou locais para fazer um simples pagamento ou levantar dinheiro. Se os mais novos o fazem com alguma facilidade, o mesmo já não acontece com alguns dos mais idosos, que são, maioritariamente, os que recebem pensões. A este propósito, os que recebem pensões, quer seja por velhice, invalidez ou sobrevivência, também aumentaram.

Os beneficiários de pensões da Segurança Social eram, em 2018, 7 157, mais 693 que em 2010 (eram 6 464 beneficiários). Já os que recebem pensões da Caixa Geral de Aposentações, ou seja, os que trabalharam para o Estado, eram 1 227 em 2018, e 1 092 em 2010 (um aumento de 135). Quer isto dizer que a percentagem de população que recebe pensões era de 40 por cento em 2018, contra os 36 por cento de 2010.

Segundo os dados da PORDATA, existiam, no concelho do Cartaxo, em 2018, menos empresas não financeiras (empresas, empresários em nome individual e trabalhadores independentes). Das 2 380 de 2010 passámos a 2 340, em 2018. Empresas que davam trabalho a 6 072 funcionários em 2010 e a 5 777 em 2018. Ou seja, as 40 empresas que se extinguiram neste período de oito anos resultaram em 295 postos de trabalho perdidos.

Ainda assim, e contrariamente ao que seria de esperar perante esta realidade, o número de desempregados inscritos no Centro de Emprego é menor, bem como o número de beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI). Assim, em 2010 existiam no concelho do Cartaxo 917 desempregados (correspondentes a seis por cento da população residente) e em 2018 eram 514 (três por cento da população residente). No que respeita ao RSI, 2010 registou 761 beneficiários e 2018, 229. Uma diminuição que poderá passar por diversos fatores, como o ‘apertar’ das regras das entidades responsáveis pela atribuição deste subsídio ou pela adesão destes beneficiários aos programas entretanto criados pelo governo, como o programa CEI+. Ou então, e gostaríamos que fosse esta a realidade, porque conseguiram, efetivamente, melhorar as suas condições de vida, deixando de ser elegíveis para a atribuição de RSI.

Câmara Municipal
A Câmara do Cartaxo reduziu o seu Quadro de Pessoal. Dos 444 trabalhadores em 2010 passou para 348 em 2018. Ainda assim, e apesar desta redução, continua a ser o maior empregador do concelho. E esta não foi a única alteração no seu funcionamento. Dos quase 16,5 milhões de euros gastos em 2010, a Câmara Municipal passou a gastar perto de 14 milhões de euros em 2018. Uma obrigatoriedade, diríamos nós, face à situação financeira conhecida do Município, que teve de recorrer à ajuda estatal (continua a ser um Município FAM até 2047). A Câmara do Cartaxo, além de todas as dívidas, teve uma quebra de receitas na ordem dos seis milhões de euros entre 2010 e 2018. Em 2010 entraram nos cofres da autarquia quase 20 milhões de euros; em 2018, as receitas caíram para pouco mais de 13,5 milhões. Isto resultou num saldo negativo de 160 mil euros em 2018, quando em 2010 tinha sido de cerca de três milhões de euros. Apesar de o saldo financeiro ser negativo, as transferências recebidas em 2018 foram consideravelmente maiores, representando 52,5 por cento do total. Em 2010, essas transferências foram de 33,4 por cento.

Mesmo atravessando uma situação difícil (ainda hoje, em 2020, o Conselho de Finanças Públicas considera o Cartaxo como um município à beira da rutura financeira), a Câmara Municipal investiu em cultura, desporto e ambiente. E se o investimento em cultura e desporto foi bastante menor, com apenas 6,1 por cento em 2018 (tinha sido de 19,4 por cento em 2010), o ambiente, nomeadamente no que respeita à recolha de resíduos sólidos urbanos, viu o investimento reforçado, tendo passado de dez por cento, em 2010, para 13 por cento, em 2018. Uma verdadeira necessidade, já que cada habitante produzia, em 2018, 49,8 quilos deste tipo de resíduos, ao passo que em 2010 esse número se ficava pelos 26,3 quilos. Este investimento era, em 2018, superior em cinco por cento à média nacional.

Entidades oficiais* Instituto Nacional de Estatística, Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, Agência Portuguesa do Ambiente, Banco de Portugal, Caixa Geral de Aposentações, Direção Geral da Administração Local, Direção Geral das Estatísticas da Educação e Ciência, Direção Geral de Energia e Geologia, Direção Geral do Orçamento, Direção Geral da Política de Justiça, Direção Geral da Saúde, Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos, Gabinete de Estratégia e Estudos, Gabinete de Estratégia e Planeamento, Instituto do Cinema e Audiovisual, Indicações Geográficas Protegidas, Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, Instituto da Segurança Social, Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, Secretaria Geral do Ministério da Administração Interna, Sociedade Interbancária de Serviços.

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