“Tem de se aprender a dizer não”

Garante não ter horas para trabalhar. Se for preciso dá assistência a um cliente a um domingo, mas não perde uma oportunidade de juntar amigos à volta de um petisco. Orgulha-se dos 20 anos da sua empresa e garante que mudava muita coisa se voltasse atrás.

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Quando começamos a conversa com Fernando Lourenço, percebemos que um espaço de entrevista não é apropriado para o fazer falar. E é estranho que assim seja. O fundador da Hidrocampo é conhecido por ser um bom conversador. Cedo percebemos que, para Fernando Lourenço, uma boa conversa é à volta de uma boa mesa, com amigos, um local onde ele arranja sempre espaço para mais uma memória, um episódio divertido. Mas o que lhe propunhamos hoje era que nos contasse um pouco da história da sua empresa. Vamos, nas suas palavras, começar pelo princípio. “Eu já trabalhava numa empresa desta área. Numa altura em que atravessámos uma fase menos boa, percebi que era chegado o momento de abrir a minha própria empresa. Em 1995, com um sócio, assim aconteceu” recorda.

A nova empresa, batizada de Hidrocampo, tinha como objetivo “fazer trabalhos na área de regas, que era para onde eu estava mais vocacionado”, conta Fernando Lourenço, “e o meu sócio ficava com a parte ligada à agricultura. Tivemos problemas iniciais, porque a aceitação na área dos produtos químicos não foi muito boa e, na minha opinião, cometemos um erro ao estabelecermos o negócio num armazém em Vale da Pinta. Percebemos que as pessoas não se deslocavam com a mesma facilidade com que o fariam se a empresa estivesse aqui na cidade, mesmo que com a deslocação poupassem alguma coisa”. O passo seguinte foi, então, alugar uma loja no Cartaxo, o que aconteceu no final do primeiro ano de atividade. “Nessa altura, decidimos dar um novo rumo à empresa, o meu sócio saiu e eu continuei a trabalhar sozinho”. Sozinho na gestão, porque manteve os cinco postos de trabalho que, entretanto, criou. O empresário confessa que prefere trabalhar com o seu próprio pessoal, não recorrendo a mão-de-obra ocasional quando há maior volume de trabalho. “Prefiro ter pessoas que trabalhem comigo todos os dias. Habituamo-nos melhor aos ritmos de trabalho e às necessidades da empresa. Já tive pessoas contratadas para trabalhos pontuais, mas acabei sempre por ter problemas”, revela.

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Como profissional dedicado, Fernando Lourenço fala de inúmeras obras que a sua empresa executou, sempre com um carinho especial. Refere pormenores, recorda apontamentos, muitas vezes frisa aspetos técnicos das obras. Percebe-se o empenhamento que coloca no seu trabalho. “Gostava de dizer que, apesar de trabalhar mais fora do concelho, ainda este ano estivemos aqui bem perto a fazer a restruturação da rede de águas de Almoster. Fizemos abertura e tapamento de valas. Também as tubagens e as ligações dos ramais fomos nós que fizemos” esclarece, acrescentando, com orgulho, que “andámos também, agora, com a Vibeiras, a fazer um campo de golfe em Almares e outro campo no Estoril”.

Fernando Lourenço confessa que não gosta de falar de números e lembra que “o volume de negócios da empresa é variável”. No entanto, vai dizendo que este ano está a ser um pouco mais fraco que o ano passado, “por não haver obras de grande envergadura”, mas também porque as pequenas obras, na área de jardins, desapareceram. “As águas são caras. Aqui no Cartaxo, quem tiver um jardim e utilize água da rede pública paga uma fortuna e isso leva as pessoas a diminuírem a área de jardim”.

Também para Câmaras Municipais surgem menos trabalhos, e os que se vão mantendo são os dos sistemas de regas. Com os jardins em baixa, sobram trabalhos de rega agrícola. “Na área agrícola podemos fazer qualquer tipo de trabalhos. Temos sistemas gota a gota para olivais e vinhas, fazemos sistemas de rega cobertura total, com aspersores que dão para milho, couve, cebola”, esclarece, acrescentando pormenores sobre o tipo de tubagens e de plantações. Com o trabalho na sua área, Fernando Lourenço ganhou experiência na agricultura e fala com desenvoltura sobre os diversos tipos de plantações e que tipos de rega preferem as diferentes espécies agrícolas. “É normal, vamos aprendendo, até porque temos clientes que nos entregam a conceção do projeto completo e temos de saber o que fazer”.

Nestes 20 anos de vida, a Hidrocampo tem vindo sempre a crescer. Não é hoje a mesma empresa que Fernando Lourenço fundou, mas os tempos não estão para grandes euforias. “Até 2007 fomos sempre a crescer, mas a partir daí, o negócio deixou de ser o que era. Há hoje uma concorrência muito grande”. Sentiu a crise? “Senti, apesar de 2013 e 2014 terem sido anos bons em contra crise. Mas nós estamos habituados, porque nesta área há paragens em vários meses. Quando chove, por exemplo, as obras param. Vamos fazendo reparações e revisões nessas alturas, é normal, são tempos mais mortos”. Fernando concorda que o seu negócio não tem fim à vista, “vamos sempre fazendo qualquer coisa, mesmo que seja trabalhos mais pequenos. Isso nunca acaba”.

Quisemos saber se achava que, se estivesse agora a começar, seria possível levantar a empresa, à semelhança do que fez em 1995. “Não sei. Mas sei que, com o conhecimento que tenho hoje, faria coisas muito diferentes. Quando se está num negócio tem de se saber separar o coração da parte comercial. Eu facilitei muito ao longo destes anos e depois houve pessoas que abusaram. Se fosse hoje, nunca teria deixado chegar situações onde deixei chegar. Hoje, nunca estaria um ano sem receber de uma empresa. Tem de se aprender a dizer não”.

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