Portugal é uma selva abandonada, com 3,5 milhões de hectares de área florestal e onde 20% do território não tem proprietário ou é desconhecido. Se a isto juntarmos uma distribuição absurda por 11,7 milhões de prédios rústicos com uso agroflorestal, temos um cenário apocalíptico, onde o diabo com apenas um fósforo nos pode levar ao inferno.
Há décadas que chegado o verão, vivemos com o credo na boca e para quem é crente, a rezar para que o fogo não nos chegue à porta. Agora, com as incontornáveis alterações climáticas e aquecimento global, tudo se agudizou e as probabilidades de haver mais catástrofes e com maior dimensão, aumentaram exponencialmente. Lembrar o terrível ano de 2017, com dois episódios dantescos e dezenas de mortes às mãos das chamas descontroladas, deveria obrigar a que o país decidisse finalmente enfrentar o problema gigantesco que tem na sua selva florestal, desordenada, massiva e onde apenas 46% dos espaços arborizados possuem cadastro predial.
No entanto o que vemos são teorias da conspiração sobre empresas de aviões que lucram com o fogo, populações em pânico e níveis de destruição inaceitáveis num país (que se quer) moderno. Pelo meio as muitas corporações de bombeiros arriscam as suas vidas nas serranias pedregosas e nas matas cerradas de onde sair vivo é uma roleta russa, para tentarem salvar pessoas, casas e bens de milhares de aldeias e casarios semeados pelo centro e norte de um país eternamente adiado.
Não sendo o estado português o melhor dos exemplos a vários níveis de intervenção, muito deste caos florestal também se explica pelos números. A proporção entre floresta pública e privada é na europa de 50/50. No mundo sobe para uns apreciáveis 73% de gestão pública. Em Portugal é de apenas 3%, estando nas mãos de privados cerca de 92% e regidos por explorações industriais uns meros 4%. E se estes espaços de produção florestal por empresas do setor quase nunca ardem, os da maioria dos privados estão abandonados à sorte climatérica e aos desígnios da negligência humana no uso do fogo. O que sobra aos primeiros, em limpeza, vigilância e ordenamento, falta grosseiramente a todos os demais, com matos adensados e manchas de árvores acumuladas ininterruptamente, impenetráveis e que estão condenadas a arder.
Quem conhece o país basta chegar à zona do pinhal interior e observar por quilómetros sem fim a mancha verde e sem cortes ou acessos dignos desse nome, numa região que à medida que se avança para norte se torna mais montanhosa, enredosa e de enorme dificuldade em aceder. E em grande parte destes municípios o desconhecimento sobre a propriedade dos terrenos é quase uma regra, tal o abandono por parte dos herdeiros de milhares de micro e mini parcelas onde as árvores e mato crescem sem rei nem roque. Em tempos idos havia mais campos agrícolas e mais pastorícia, mas nas últimas décadas o abandono dessas atividades foi quase total, dando espaço a que o arvoredo ganhasse terreno, sem a força limitadora das máquinas roçadeiras e sem a voragem de cabras e ovelhas.
Infalivelmente, nas longas semanas que se avizinham os incêndios irão chegar em força e encher os noticiários com imagens tenebrosas de populações envoltas num mar de chamas e densos fumos negros, a queixarem-se entre vales de lágrimas de que os bombeiros não chegam e que os seus bens de uma vida irão perecer no fogo maldito. Como se de uma maldição se tratasse. Mas se há mal, que há, não está numa qualquer magia mais ou menos negra, como os fumos. Está sim na inércia de décadas, na falta de vontade política que se resume a discursos de circunstância e a grandes promessas de “tudo fazer” para mudar o que parece inevitável. E pelo meio a culpa morre quase sempre solteira, entre uma gritaria mediática de todos os que têm algum tipo de responsabilidade ativa e passiva na gestão do território e das florestas.
Uma solução seria implementar em cada concelho a expropriação por utilidade pública dos milhares de parcelas abandonadas que passariam assim a ser geridas pelo estado, podendo inclusive aproveitar-se toda a biomassa para gerar energia elétrica e quem sabe ajudar a enterrar boa parte da infraestrutura de média tensão, evitando o colapso recente na região de Leiria às mãos dos ventos ciclónicos. Mas será que passar a gestão para o estado resolve o problema? Temo que não. Ou de uma vez por todas tomamos a transformação da floresta como um imperativo de ordem pública, ou vamos continuar a padecer dos mesmos males, com mortes evitáveis e perda de bens em toda a linha. Como dizia alguém de forma avisada “insanidade é continuar a fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes”. Portugal tem sido um país insano. Cabe a cada um de nós trazer a sanidade para a praça pública e exigir que seja o mote.