Uma Caricatura de Estágio

 

Estorial com ou sem História, por José Caria Luís

José Caria LuísDepois de tanto estudar, prevaricar, dar e levar (xutos e pontapés), e tantas outras ocorrências próprias de rapazes de mau porte, chegava o fim das nossas carreiras na Primária. No entanto nem tudo fora assim tão mau, já que houve atitudes, pautadas por alguma nobreza de caráter, que ajudavam a disfarçar as malfeitorias da nossa rapaziada.

Naquelas idades, criados num meio rural tão hostil às criancinhas, também não se esperaria que o pessoal tivesse a veleidade de aspirar à coroação ou a outra qualquer forma de loa. Contudo, há que ser coerente e, para que conste, quase todos frequentámos a catequese e as missas de domingo; não éramos nenhumas almas penadas que para ali andavam. Tendo em conta a lisonja de que fui alvo ao ser escolhido pela catequista, Dª Regina Couto Viana, para rumar ao Seminário, já não me podiam estigmatizar pelas façanhas antes cometidas. Eu acho que o pior dos males tinha que ver com o rescaldo das confissões. É que confessar os pecados ao padre e, após rezar as cinco avé-marias da penitência, ficar a saber que se estava ilibado de todas as patifarias, não ajudava muito à nossa reabilitação. Os castigos deveriam ser mais severos e duradouros.

Mas falemos do estágio. Tendo em conta que a nossa mestra residia no Cartaxo, era de todo lógico que o nosso estágio tivesse lugar na, então, vila; mais propriamente, na habitação da senhora, na rua Serpa Pinto. Íamos a penantes, mas muito contentes, cantando durante todo o caminho, até porque estudar no Cartaxo era outra coisa. Porém, o desencanto não tardou: o aposento que nos fora destinado, e cujas portas nos foram franqueadas, era um logradouro com entrada e saída para a rua do Quintino. Infestado de galinheiros e coelheiras, de onde emanava um intenso pivete, era ali, sem um mínimo de condições, sentaditos nuns toscos cepos de oliveira, que tínhamos que armazenar na pinha toda a matéria que a professora nos passava à primeira hora. Só a voltávamos a ver no fim da sessão, ao final da tarde.

Como se depreende, era verão, o calor abafava, e nós, os quatro, ali debaixo de uma espécie de telheiro, a sermos incomodados pelos pintainhos que, famintos, não nos davam tréguas, não tínhamos vida fácil. Os franganitos que, à nossa semelhança, também estavam num regime alimentar de pão seco, lá iam depenicando as nossas migalhas, já que comida quente nem vê-la. Mas eu, e mais os três comparsas que completavam o quarteto, estávamos imbuídos de enorme espírito de missão, pois estávamos avisados de que, pela frente, teríamos os alunos da Primária do Cartaxo, do conceituado prof. Poeira, que seriam o padrão, a bitola pela qual nos tínhamos que pautar.

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Apesar de tudo, tínhamos a sensação de que estaríamos preparados para enfrentar o batas-brancas do prof. Poeira. Eles eram muitos, mas só me lembro de alguns deles, como o Veríssimo, o Júlio Neves, e o João Carlos Silveira. Talvez por sermos tão poucos, o espírito de equipa esteve sempre presente.

No fim, tudo acabou bem. Para um início escolar algo atribulado, e quatro anos um tanto rocambolescos, não se pode dizer que tenha sido um final infeliz.


 

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