Urge combater a desertificação e o envelhecimento das terras

Opinião de Renato Campos

É inegável que as assimetrias territoriais têm-se vindo a agravar, quer a nível nacional, regional ou local. Hoje, temos um país de “risco ao meio”, dividido entre uma faixa litoral atrativa das populações e um interior cada vez mais desertificado. A mesma dualidade acontece dentro das regiões e dos concelhos.

Uma economia de mercado, desregulada, tende por natureza, a acentuar as assimetrias entre territórios prósperos e deprimidos. É aos primeiros que acorre o investimento privado e onde também, habitualmente, se concentra o público. Em resultado desta dicotomia, uns territórios prosperam, outros vão empobrecendo.

O progressivo despovoamento e desqualificação e isolamento do mundo rural; o aumento da população idosa; a aflitiva falta de resposta nos cuidados de saúde e nos apoios sociais; o consequente declínio da população juvenil; a falta de emprego para os jovens que ainda por lá concluem o secundário; a quebra da cadeia geracional na transmissão de tradições e das formas de cultura popular, constituem fatores que têm vindo a ser responsáveis pela desertificação constante dos territórios do interior ou dos mais empobrecidos.

É incontornável que nos últimos decénios, as autarquias locais alteraram profundamente a face do país, investindo os seus recursos financeiros, os que tinham e os que não tinham, na construção de infraestruturas e equipamentos. Excetuando algumas opções erradas, as povoações ficaram, na generalidade, dotadas de melhores condições de habitabilidade. No entanto, na ausência simultânea de outros fatores de desenvolvimento ou na falta de recursos próprios, muitos desses investimentos municipais não bastaram para travar o êxodo das populações.

É bom lembrar que se constitucionalmente, a promoção de um desenvolvimento harmonioso do território é uma das tarefas fundamentais do Estado, o certo é que, na atual legislatura, com as severas políticas de austeridade impostas, não seletivas e abruptas, as assimetrias agravaram-se substancialmente. A demografia levou uma forte machadada com a emigração (grande parte de jovens qualificados). A extinção de programas qualificativos, como as Novas Oportunidades, sem outros em alternativa, o encerramento abrupto de escolas, postos médicos, CTT, juntas de freguesia e outros serviços de apoio às populações, desqualificaram os territórios e desertificaram ainda mais o mundo rural.

O concelho do Cartaxo, no seu todo, também sofreu dessa distorção negativa. Um anémico crescimento e envelhecimento populacional, o encerramento de equipamentos de prestação de serviços de proximidade (alguns quase por estrear), sobretudo ao nível das freguesias mais rurais (é triste vermos o número de escolas encerradas!), origina como é natural, que as populações emigrem para locais mais urbanos, sobretudo para a sede do concelho e daqui para outros aglomerados de nível superior.

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Mas uma verdade é inquestionável: sem pessoas, as terras não crescem nem se desenvolvem, e um país que se esquece de metade de si próprio, nunca poderá ser um país desenvolvido.

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