Vamos mudar de assunto, sim?

Opinião de Ana Benavente

Vamos mudar de assunto, sim?

Estas últimas semanas cansaram-nos. A mim, cansaram-me.

Sentimos que o nosso poder é pouco, muito pouco para além da cruzinha no voto e das palmas partidárias. Sentimos que o mundo está muito perigoso e mistura-se a razão com a emoção. Sentimos que pouco sabemos, para além do que querem que se saiba. O medo vem, como os vampiros com “pés de veludo”, cantava Zeca Afonso.

Então, vamos mudar de assunto, sim?

Sabem quem foi Paulo Freire? Foi um educador, pedagogo, brasileiro, autor de uma concepção emancipadora da educação e criador de um método de alfabetização de adultos que parte da realidade vivida por cada um para a “ler” e compreender. Exilou-se no Chile, de Salvador Allende, durante a ditadura militar no Brasil.

Paulo Freire considera – e para isso trabalhou toda a vida – que uma pessoa educada e “letrada” é uma pessoa com mais consciência dos seus direitos e deveres, da sua participação cidadã, uma pessoa capaz de intervir sobre a sua vida, individual e colectivamente.

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Escreveu vários livros, entre os quais a “Pedagogia do Oprimido”. Foi uma “pedrada no charco” afirmar e demonstrar, na prática, que “saber é poder” e que o conhecimento muda o nosso modo de estar no mundo. A educação liberta-nos da escravidão, alarga os nossos horizontes. Aprendemos a saber quem somos, nós e os outros. A educação traduz-se na “consciência em acção”.

Temos sido muito castigados, nós, primeiro com o analfabetismo, depois com as desigualdades sociais. A emigração foi – e voltou a ser – a fuga possível para uma vida melhor.

Triste com o país? Compreendo. Gostaríamos de viver numa democracia com D grande, gostaríamos que a “liberdade, igualdade e fraternidade” fossem levadas a sério. Paulo Freire fez desse lema a orientação da sua vida. O último Relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico – Education at a Glance) assinala que Portugal foi um dos países que mais baixou o investimento em educação. Está mal. Aida nos falta melhorar muito. As sociedades com qualificações mais altas (está provado) encontram melhores soluções para os seus problemas. Dois anos de aumento da escolaridade das mulheres diminui enormemente a mortalidade infantil, afirma a UNESCO, num dos seus Relatórios sobre a Educação para Todos (EPT). A educação faz-nos falta. E Portugal desinveste.

Mudámos de assunto? Queria mesmo falar só de Paulo Freire e afinal parece que voltei à actualidade, ao mundo, aos contrassensos, às alegrias e tristezas.

Sorria, está a ser filmado. É só o que vos posso dizer em novembro de 2015.

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