Vem aí uma geração de totós?

por Sónia Parente, Psicóloga Clínica e Mestre em Psicologia Educacional

Hoje em dia, a educação dos filhos é baseada numa super proteção, que muitas vezes se pode aproximar a uma obsessão. Os pais querem controlar tudo e todos de forma a que não possa acontecer qualquer percalço aos filhos, ideia que é levada a cabo cada vez até mais tarde levando a que os filhos já mais velhos saibam fazer pouco ou nada sozinhos.

Se há uma briga entre colegas, os pais vão à escola para resolver o assunto por eles. O recreio é supervisionado por muitos pais para garantir que tudo corre bem. Buscar e pôr os filhos mesmo à porta da escola é o habitual. Apertar os casacos dos filhos até cada vez mais tarde. Mexer num fogão e alguns até no microondas nem pensar. Andarem sozinhos na rua, ir à padaria comprar pão, mesmo com dez e 11 anos, nem até à esquina. Atravessar uma passadeira sozinhos, muito perigoso. Subir às árvores, podem-se aleijar. E tantos outros exemplos. Não há crescimento num ambiente super protetor. Estamos a criar totós.

É comum ouvir os pais dizer que os filhos são ainda muito infantis, que há muita coisa que não sabem fazer sozinhos e que são pouco “desenrascados”. Se ninguém lhes ensinou e não os orientou para que fizessem determinadas tarefas sozinhos, como podem eles saber? Habituados a fazer-lhes tudo, como se os filhos não tivessem capacidade para o fazer, os pais nem se apercebem que ao fazer e ao resolver a grande maioria das coisas pelos filhos eles não aprendem a fazê-las.

A obsessão pela segurança dos filhos leva a que os pais queiram protegê-los de tudo e resolver tudo por eles. O excesso de zelo dos pais cria filhos inseguros e dependentes, imaturos até mais tarde e sem habilidades para enfrentar a vida.

Ao tratar os filhos como “reis no trono”, retiram-lhes o contacto com a realidade e com as dificuldades próprias da vida, que mais cedo ou mais tarde terão de saber resolver e superar. Como não fazem as suas coisas sozinhos, não acreditam que conseguem fazê-las. Gera dificuldade em enfrentar situações novas, falta de iniciativa, dificuldade em lidar com a frustração e falta de confiança em si próprios, que os irá acompanhar até à fase adulta.

Um educar saudável pressupõe orientar os filhos para que se tornem independentes, através de uma proteção cuidadosa, mas equilibrada e não excessiva, o que implica um empenho da família nesse sentido. Educar para a vida é a maior prova de amor que existe.

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