Vou dormir sobre o assunto

Por Sónia Parente
Todos sabemos o quanto é importante uma boa noite de sono e facilmente relacionamos fases menos boas da nossa vida com noites mal dormidas. É um facto que o sono desempenha um papel importante na boa saúde física e mental para crianças, adolescentes e adultos.

Como todos sabemos, noites mal dormidas geram irritabilidade, mudanças de humor e aumento da impulsividade, enquanto que noites de sono saudáveis e reparadoras contribuem para o bem-estar emocional. O sono é essencial na regulação e gestão das nossas emoções, tem uma componente homeostática das emoções. Dormir melhor ou pior tem um impacto na forma como regulamos as emoções.

A saúde mental afeta e é afetada pela quantidade e pela qualidade do sono. A ansiedade, a depressão e outros distúrbios psicológicos estão diretamente relacionados com as perturbações do sono, isto é, assim como os distúrbios psicológicos podem afetar o sono, também as perturbações do sono têm influência no desencadear ou no intensificar dos distúrbios psicológicos. Portanto, a privação de um sono tranquilo pode ser causa ou consequência de distúrbios psicológicos e podem reforçar-se mutuamente.

Na maioria das vezes as perturbações do sono – insónias, dormir agitado, pesadelos…– são passageiras e associadas a fases de mudança e/ou a situações de crise. No entanto, se mais prolongadas no tempo, quer nas crianças e jovens, quer em adultos, podem ter consequências a médio e a longo prazo, sendo as principais: cansaço, irritabilidade, ansiedade, agitação, impulsividade e baixa capacidade de manter a atenção/concentração que pode gerar dificuldades de memória e de aprendizagem.

Quando não dormimos bem durante uns dias, o facto de sentirmos que necessitamos muito de dormir para nos sentirmos melhor pode aumentar a ansiedade e levar-nos a pensar que não vamos conseguir adormecer facilmente ou ter uma noite de sono calma, o que intensifica a ansiedade e dificulta ainda mais o adormecer.

Hoje em dia, é com alguma facilidade que, perante dificuldades no sono, se tomam ansiolíticos para “ajudar a dormir”. No entanto, devem ser soluções temporárias e, caso as perturbações do sono se mantenham, há uma especialidade para o seu tratamento: a Medicina do Sono que, normalmente, tem uma abordagem multidisciplinar. Só depois de despistadas as causas de base fisiológica se pode considerar que as perturbações no sono se devem a distúrbios psicológicos ou que são as causadoras dos mesmos.

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Ter uma boa noite de sono é fundamental, tanto para adultos, como para crianças e jovens, e existem algumas estratégias para que ele seja regular: criar rotinas em relação ao período de sono – aproximadamente a mesma hora de dormir e de acordar; antes de dormir realizar atividades que relaxem (ler, ouvir música calma, meditar, tomar um banho quente, etc.); praticar exercício físico e evitar a cafeína ou estimulantes perto da hora de dormir.

Para todas as idades, mais que a quantidade de horas de sono (que também são muito importantes) a qualidade do sono é essencial para um descanso reparador e, consequentemente, para uma boa qualidade de vida.

Por alguma razão dizemos: “Vou dormir sobre o assunto”.


Sónia Parente é psicóloga clínica

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