A (re)Volta
"Mais do que as polémicas que o sistema tem gerado, o que mais incomoda são as imagens de pessoas a vasculharem contentores amarelos em busca de garrafas e latas, um pouco por todo o país". Por João Fróis
Mais do que as polémicas que o sistema tem gerado, o que mais incomoda são as imagens de pessoas a vasculharem contentores amarelos em busca de garrafas e latas, um pouco por todo o país.
Sabemos há muito que a pobreza existe e que vive envergonhada. Fechada nos milhares de casas urbanas e rurais onde o fechamento isola a visibilidade das imensas carências materiais com que vivem largos milhares de idosos, pensionistas, desempregados de longa duração e cidadãos que têm cada vez mais dificuldades de pagarem as contas mesmo a trabalhar.
Mas habitualmente só as filas de acesso aos bens recolhidos pelo banco alimentar, Cáritas e Cruz vermelha, mostram boa parte daqueles que necessitam de apoios para conseguirem simplesmente sobreviver. Agora temos os ecopontos. E que nos atiram para aquela sensação estranha da indigência social frente aos nossos olhos. Afinal 10 cêntimos fazem assim tanta diferença? Pelos vistos, sim. A multiplicar por dezenas de latas e garrafas em sacos cheios e que entopem rapidamente a capacidade das máquinas de recolha. Não raras vezes vemos pessoas a depositarem quantidades enormes de objetos elegíveis, a qualquer hora do dia.
Certamente a ideia do sistema Volta não era esta. Tirar de um local para colocar noutro, gerando uma cadeia de oportunidade de ganhar alguns euros mesmo que a vasculhar onde não é suposto. Foi pensado para aumentar a separação das embalagens e a sua recolha para reciclagem. Será já tempo de avaliar o real impacto do sistema e a necessidade de o melhorar, sob pena de criar mais aversão ao sistema e gerar uma revolta social por um tema que deveria ser pacífico e importância relativa.
Mais que recolher estes materiais seria crucial acabar com os aterros sanitários onde caem todo o tipo de materiais e onde ficarão a poluir sem qualquer tratamento.
Pelo meio seria ótimo voltar a promover o uso do vidro, material reciclável milhares de vezes e que não gera micro plásticos nos oceanos. E incentivar o uso dos materiais já existentes e substitutos do plástico, recicláveis e biodegradáveis. Essa sim é a evolução que necessitamos na gestão dos resíduos. Para ontem.








