AFUL: “A única coisa que falta é dinheiro. É a limitação que temos”

Fomos até à Lapa ao encontro da direção da Associação Filarmónica União Lapense (AFUL), uma das coletividades mais dinâmicas do concelho do Cartaxo. Com uma história marcada pelo envolvimento da comunidade, a associação continua a juntar membros veteranos e novos elementos, apostando na renovação e na continuidade de um projeto cultural com forte ligação à freguesia. Entre a cozinha, a agenda, a organização musical e a gestão financeira, cada elemento da direção desempenha um papel essencial nos bastidores, contribuindo para que a Banda Filarmónica e a Escola de Música continuem a funcionar e a apresentar-se ao público. A única coisa que lamentam é a “falta de dinheiro”

A Escola de Música está a preparar o novo ano letivo e assume-se como uma das prioridades da direção. “Foi um ano positivo de um modo geral”, e a formação de novos músicos é entendida como essencial para garantir o futuro da Banda Filarmónica, que conta atualmente com cerca de 30 elementos e com uma agenda preenchida. No último ano, o balanço, contudo, é bastante positivo. Entre atuações, concertos e outros serviços, a banda aproxima-se de duas dezenas de compromissos até final do ano. Pelo meio houve a saída de Edgar Barbosa e a entrada de Rolando Ferreira, que passa a dirigir a Banda Filarmónica da AFUL.

Escola de Música reforça aposta na formação e prepara novo ano letivo

A Escola de Música inicia este fim de semana um novo ano letivo com um balanço positivo do trabalho desenvolvido e com vários projetos em perspetiva. A recuperação da Orquestra Juvenil, o crescimento do número de alunos e a criação de uma classe para adultos estão entre as principais novidades anunciadas por Sandro Santos, diretor da Escola de Música e vice-presidente da direção.

“Foi um ano positivo de um modo geral”, começa por afirmar Sandro Santos, recordando que, quando assumiu funções na Escola de Música, tinha um projeto pensado para quatro ou cinco anos. O principal objetivo mantém-se: formar novos músicos que possam, no futuro, integrar a banda principal. A esse propósito juntou-se outra ambição pessoal: recuperar a Orquestra Juvenil, agrupamento do qual fez parte durante as décadas de 1980 e 1990.

O objetivo começou a concretizar-se no final do ano passado. Em dezembro, a Orquestra Juvenil voltou a apresentar-se em público, retomando uma atividade que há muito fazia parte da identidade da AFUL. Atualmente, a Escola de Música conta com cerca de 30 crianças, a maioria das quais já dispõe de instrumento.

A formação inicial continua a ser assegurada através das aulas de introdução musical e de teoria musical. A escola reforçou também o acompanhamento dos alunos que pretendem prosseguir estudos. “Temos quatro alunos nossos no Conservatório de Santarém, começaram aqui e depois quiseram ir para o Conservatório”, explica Sandro Santos, considerando esta evolução “algo muito positivo”.

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Outro dos motivos de satisfação é a manutenção do corpo docente, constituído quase na totalidade por professores com formação e experiência ao nível do ensino especializado. As aulas estão organizadas por grupos de instrumentos, abrangendo saxofone, percussão, flauta, clarinete, trompete e trompa.

A equipa foi ainda reforçada com Luís Veríssimo, músico com uma longa ligação à coletividade e à comunidade local. Apesar de já não tocar há algum tempo, aceitou o desafio de ensinar um instrumento às crianças. “Com a idade que ele tem, ficou dez anos mais novo só a ensinar um instrumento aos meninos”, comenta o diretor, destacando o entusiasmo e a disponibilidade demonstrados.

A relação com os pais e com a comunidade continua a ser uma das bases do projeto. Para este novo ano letivo, a Escola de Música prepara-se para receber novos alunos e lançar uma classe destinada a adultos. A intenção é proporcionar também a pessoas de outras idades a oportunidade de aprender música e, posteriormente, integrar os novos elementos na banda.

Apesar do crescimento e dos resultados alcançados, existe uma dificuldade que continua a condicionar o desenvolvimento do projeto: a falta de recursos financeiros. “A única coisa que falta é dinheiro. É a limitação que temos”, resume Sandro Santos.

A necessidade é particularmente evidente na aquisição de instrumentos. “Precisamos de mais instrumentos para poder construir e continuar a fazer crescer o projeto”, explica.

A Escola de Música procura oferecer uma resposta acessível às famílias. Mediante contribuições que rondam os 20 ou 25 euros, dependendo dos módulos frequentados, uma criança pode ter aulas com professores qualificados, utilizar um instrumento emprestado e integrar uma orquestra. A Associação assegura ainda o fardamento dos alunos.

“Não há muitos sítios onde uma criança de 12 anos consiga ter um instrumento emprestado, ter aulas com professores profissionais e fazer parte de uma orquestra”, sublinha o diretor. Na sua perspetiva, este modelo representa uma importante devolução à comunidade, permitindo que a aprendizagem musical não fique limitada às famílias com maior capacidade financeira.

O financiamento da Escola de Música assenta sobretudo nas quotizações dos associados e nas receitas dos eventos promovidos ao longo do ano. A coletividade conta também com o apoio de alguns patrocinadores e mecenas, que contribuem pontualmente para a concretização de projetos.

Embora alguns apoios tenham origem fora do concelho, a Escola de Música continua a contar com empresas locais e com os patrocinadores habituais da comunidade. “São sempre os mesmos que trabalham, mas também têm ajudado muito”, reconhece Sandro Santos, salientando a importância destas parcerias para a continuidade da atividade.

O desafio passa agora por consolidar o trabalho realizado, atrair mais alunos, reforçar a Orquestra Juvenil e criar condições para que a banda continue a crescer. Com novos estudantes a chegar, uma classe de adultos em preparação e uma equipa de professores estável, a Escola de Música entra no novo ano letivo com ambição, mas consciente de que o futuro dependerá também da capacidade de mobilizar apoios.

Para Sandro Santos, investir nesta escola é investir na formação cultural dos mais jovens e na própria comunidade. Cada instrumento emprestado, cada aula e cada atuação representam uma oportunidade de aprendizagem, convívio e participação. O objetivo continua a ser formar músicos para a banda principal, mas também garantir que a música permanece acessível a todos.

 

Nuno Lourenço: “Fomos fazendo parte cada vez mais desta família”

Nuno Lourenço é, atualmente, o diretor da Banda — embora prefira explicar a função de forma ligeiramente diferente. “Faço a ligação entre a direção e a banda”, afirma. A resposta, porém, é prontamente corrigida pelos restantes dirigentes: “Tu és diretor. Não fazes ligação nenhuma. Tu és o diretor. Ponto final.”

Entre brincadeiras e sorrisos, fica evidente a forma como Nuno encara o cargo: com responsabilidade, mas também com proximidade e sentido de pertença. A ligação à banda começou há cerca de três anos, por intermédio do filho, que frequenta o Conservatório e toca trompete. “O meu filho está no oitavo ano e vai continuar no trompete este ano”, conta.

A entrada aconteceu quase por acaso. O maestro Edgar Barbosa, professor no Conservatório de Santarém e antigo maestro da AFUL, e Dinis Carniça, membro da Banda Filarmónica e colega de trabalho de Nuno, foram insistindo para que levasse o filho aos ensaios. “Tens de levar o miúdo, tens de levar o miúdo”, recorda. Nuno acabou por aceitar o convite e levou-o pela primeira vez à banda. “Ele veio aqui há três anos. E ficou.”

Desde então, a presença da família tornou-se regular. Apesar de viver em Santarém, Nuno desloca-se todas as semanas para acompanhar o filho, participar nas atividades e estar presente nas saídas da Banda. “Santarém para aqui, às sextas-feiras. E daqui saídas com a banda. Fui sempre acompanhando.”

Esse acompanhamento transformou-se numa ligação mais profunda. “Fomos fazendo parte cada vez mais desta família”, afirma. Foi esse sentimento de pertença, aliado à confiança demonstrada pelos restantes elementos, que o levou a assumir novas responsabilidades. “O Sebastião, quando quer convencer, sabe convencer”, brinca.

No ano passado, Nuno foi convidado a integrar a direção, num período de eleições e de renovação dos órgãos de direção da AFUL. A proposta foi direta: “Tenho esta proposta para ti: ou sim, ou sim.” A resposta também não demorou. “E eu pronto, sim.”

A decisão significou assumir um compromisso maior com uma Associação que, em pouco tempo, passou a ocupar um lugar importante na sua vida. “Ganha-se o afeto por estas pessoas. É um assunto de família. É mesmo assim”, explica.

Hoje, essa ligação estende-se também ao núcleo familiar mais próximo. O filho toca trompete na Banda e a esposa assumiu, há cerca de um ou dois meses, a função de porta-estandarte. “Portanto, é arregimentada a família”, diz, entre o orgulho e a satisfação.

“Foi o meu primeiro grande desafio: arranjar as duas bandas para virem ao nosso aniversário”, recorda. Depois do aniversário, surgiu outro desafio: preparar o novo ano e garantir um calendário consistente de atuações. O objetivo era recuperar o ritmo das saídas e proporcionar aos músicos novas oportunidades de participação. “Começámos o ano do zero, a nível de saídas da banda”, explica.

O balanço, contudo, é bastante positivo. Entre atuações, concertos e outros serviços, a Banda aproxima-se de duas dezenas de compromissos anuais. “Estamos a terminar o ano e, entre saídas e concertos, temos à volta de 18 serviços. Vamos acabar o ano com 20 e qualquer coisa.”

Para Nuno Lourenço, o número representa mais do que uma agenda preenchida. É o resultado do trabalho conjunto de músicos, direção, maestro, famílias e comunidade. “O que é muito bom”, conclui.

 

 

“Equipa da Flândida” assegura funcionamento e organização “do património”

Carmina Santos, Paula Ribeiro e Irondina Barbosa formam a chamada “equipa da Flândida”, nome atribuído pelos membros da direção, responsável por garantir o bom funcionamento da cozinha, das limpezas e das arrumações.

Paula Ribeiro já definiu claramente as suas funções. “Sou chefe do património, pronto. Tomo conta dos tachos, das panelas e das louças. E faço o comer”, explica. A responsável destaca ainda as condições existentes: “Temos ali uma cozinha espetacular, toda equipada, toda maravilhosa. Temos louça para toda a gente.”

O Ricardo diz que é o menos atarefado, “Eu sou o que trabalho menos aqui. Vendo aqui os cargos todos, só tenho um cargo neste momento. É o escritório”. Ricardo é músico na AFUL há 30 anos, é quem cuida da “papelada” e da “burocracia”.

Já Francisco, chama a atenção para uma necessidade cada vez mais evidente: a modernização dos procedimentos. “Quero tablets. Porque está a ser preciso muito papel, com o novo maestro, a quantidade de papel necessária aumentou. Entre partituras, indicações e alterações”, afirma o responsável em acompanhar os músicos em palco e resolver rapidamente os imprevistos. “Há sempre um papel que está mal. Há um que não trouxe o papel”, resume, entre risos.

Também Rita Ribeiro passou a desempenhar novas responsabilidades. Depois de ter entrado para a direção, em novembro, como vogal na direção. “Alguém teria que passar para tesoureira”, explica, admitindo que a decisão surgiu perante a falta de voluntários: “Pronto, ninguém quis.”

Todos têm histórias para contar de familiares que fazem parte da AFUL ou que já pertenceram aos órgãos sociais. Aqui o gosto pela música passa de geração em geração.

 

 

AFUL prepara novo ano letivo com novas ambições

Sebastião Barbosa chegou à direção da AFUL há dez anos, na altura o edifício da sede estava ilegal, assunto entretanto resolvido, mas falta ainda algo que ambiciona, o Estatuto de Utilidade Pública, um reconhecimento legal concedido a pessoas coletivas privadas sem fins lucrativos que permite, por exemplo, benefícios fiscais e acesso a financiamento via mecenato.

Atualmente a AFUL dispõe de dois espaços alugados, o café e uma garagem, que representam uma importante fonte de receita. “Apesar de ser um valor mínimo, faz uma contribuição mensal que faz diferença. Faz muita diferença. Pelo menos, o nosso maestro está assegurado”, salienta Sebastião Barbosa, lembrando que “a banda sem maestro não é banda”.

Os próprios músicos também contribuem para a sustentabilidade da coletividade. “São os elementos da banda que também ajudam esta casa. Porque, tirando a banda, adeus amigos”, afirma, com sentido de humor.

Na Escola de Música, o investimento é feito sobretudo com esforço voluntário. “É uma carolice. Estamos a investir, mas devíamos investir nós e mais alguém, porque não nos podemos substituir ao Estado”, defende.

Questionado sobre o tipo de apoio da Junta de Freguesia e do Município, refere que a Junta tem dado apoio sobretudo logístico e que a Câmara Municipal comprou espetáculos da Banda Filarmónica no Centro Cultural, e tem convidado a Banda Filarmónica em eventos promovidos pela autarquia, revela Sebastião Barbosa.

A fechar a conversa, Sebastião Barbosa, lembra que a sobrevivência da associação depende também do apoio regular da comunidade. “Não são só as pessoas que aqui estão. Durante os dez anos em que estou aqui, tivemos sempre a ajuda de muita gente que simpatiza com o nosso trabalho ou que acha que estamos a fazer um trabalho minimamente bom”, explica. Para o dirigente é importante que todo concelho se mobilize no apoio às coletividades, “indo aos concertos, por exemplo, no último no Centro Cultural, apesar de ser de borla, foi um castigo para encher a sala. As pessoas não valorizam o que têm na terra”, lamenta o presidente da direção da AFUL.

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