O futuro do Cartaxo não é uma falácia: o negacionismo visto aos 18 anos

Por Gabriel Aleixo de Pina

A recente reunião do executivo da Câmara Municipal do Cartaxo trouxe á luz um contraste alarmante entre a responsabilidade pública e o negacionismo ideológico. Durante a discussão sobre a abertura da consulta do Plano Municipal de Ação Climática (PMAC) — avançada pelo Jornal de Cá —, a vereadora eleita pelo Chega, Luísa Areosa, afirmou que “o ser humano tem uma influência quase nula nas alterações climáticas globais”, rotulando a crise climática como “uma falácia”. Para quem, como eu, tem hoje 18 anos e está a começar a construir o seu futuro, ouvir isto no salão nobre da nossa autarquia provoca uma enorme perplexidade e preocupação.
Em contrapartida, o Vice-Presidente da autarquia, Pedro Reis, optou por uma abordagem estritamente institucional. Ao recusar-se a alimentar uma “discussão ideológica” e ao focar-se apenas nos aspetos práticos e legais da aprovação do plano, o autarca conseguiu garantir o consenso necessário. Contudo, embora esta postura pragmática tenha protegido a legalidade, ela expõe a urgência em blindar a gestão pública do Cartaxo contra teorias que desafiam a realidade. A aprovação por unanimidade foi o passo correto, mas nós, os jovens do concelho, não podemos ignorar o debate que a antecedeu.
A narrativa de que o impacto humano no planeta é nulo ignora por completo a realidade dos factos. De acordo com os dados científicos mais rigorosos e consolidados, existe um consenso absoluto de 97% a 100% entre a comunidade científica global especializada em clima. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU é taxativo e inequivoco ao afirmar que a ação humana é a causa direta do aquecimento da atmosfera. Não se trata de uma opinião partidária ou de uma escolha ideológica da minha geração; trata-se de dados empíricos e mensuráveis.
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As consequências desta interferência já se fazem sentir á nossa porta. Dados oficiais da NASA indicam que a temperatura média do planeta já subiu cerca de 1,1 ⁰C em relação aos níveis pré-indutriais. Este aumento é o motor para a desregulação do sistema climático global, resultando no aumento drástico de eventos extremos por todo o mundo. Para nós, no Cartaxo e no Ribatejo, isto traduz-se em ameaças reais: secas prolongadas que asfixiam a nossa agricultura, ondas de calor extremas e a incerteza sobre como será o clima na nossa região daqui a vinte ou trinta anos.
Classificar as alterações climáticas como “uma falácia” perante este cenário é de uma enorme irresponsabilidade política. O Cartaxo tem o dever legal e moral de preparar o seu território através deste plano de mitigação e adaptação. O debate político local deve centrar-se em como aplicar as melhores soluções para gerir os nossos recursos, e nunca em retroceder a discussões há muito superadas. A minha geração precisa de liderança assente em factos e soluções práticas. Negar a ciência não é apenas ignorar dados; é comprometer o futuro de quem hoje começa a sua vida adulta no concelho.
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