As paredes das nossas casas deveriam ser sinónimo de porto seguro, mas para demasiadas famílias no Cartaxo, elas continuam a ser o cenário de um pesadelo diário. Como jovem de 18 anos, não consigo ficar indiferente ao futuro da minha geração e do concelho onde cresço. A violência doméstica não é um problema privado; é um flagelo público que corrói o nosso tecido social e que exige uma resposta imediata, musculada e sem panos quentes por parte das autoridades e dos decisores políticos locais. Não podemos continuar a olhar para as estatísticas com a passividade de quem lê a meteorologia.
Os dados nacionais e locais traçam um retrato negro e inequivoco. De acordo com o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), as mulheres representam cerca de 69% das vítimas de violência doméstica a nível nacional. No entanto, o perigo mora muitas vezes ao lado, na aparente normalidade dos afetos: o Portal da SGMAI revela que mais de 50% dos casos reportados às forças de segurança (GNR e PSP) decorrem no âmbito de relações conjugais, de namoro ou de união de facto, sejam elas atuais ou passadas. O agressor, tantas vezes, é quem prometeu cuidar.
As repercussões desta violência propagam-se como uma onda de choque que destrói as fundações do nosso futuro: as crianças e os jovens. Segundo os dados oficiais da CPCJ do Cartaxo, a violência doméstica em contexto familiar constitui a principal causa de abertura de processos de perigo em crianças e jovens no concelho. São menores condenados a crescer num ambiente de terror psicológico e físico. O aumento acentuado de processos no Cartaxo reflete um crescimento nas denúncias efetuadas pelas forças de segurança locais (GNR). O Cartaxo está a quebrar o silêncio. A comunidade está a denunciar mais, a GNR está mais atenta, mas a estrutura atual de resposta corre o risco de ficar asfixiada se não agirmos na raiz do problema.
Perante isto, a indignação nas redes sociais ou as lamentações institucionais já não bastam. A minha geração exige ações concretas e uma medida realista, mas simultaneamente dura e implacável para com quem agride. É por isso que se torna urgente a criação de um Gabinete Especializado de Intervenção Rápida (GEIR), dotado de financiamento municipal, para reforço permanente do Posto Territorial da GNR do Cartaxo.
O GEIR não será mais uma comissão para produzir relatórios. Será uma força de intervenção imediata. Propõe -se a integração de psicólogos e assistentes sociais permanentes, financiados pelo orçamento municipal, que atuem lado a lado com os militares da GNR nas críticas duas primeiras horas após a denúncia. É neste período crucial que o processo se ganha ou se perde. É nesta janela temporal que a vítima precisa de uma avaliação técnica blindada e de apoio psicológico inabalável para não recuar na queixa por medo, coação ou dependência económica. É também aí que o agressor deve sentir o peso imediato e implacável do Estado e da justiça local.
A Câmara Municipal do Cartaxo tem a competência e o dever moral de liderar esta mudança através da descentralização de verbas para a segurança pública local. Proteger as nossas mulheres e os nossos jovens não é um custo; é o investimento mais urgente que podemos fazer na dignidade humana. O Cartaxo já começou a denunciar. Falta agora ao poder político local demonstrar a coragem necessária para agir com a firmeza que a situação exige.