O Irão não é a Venezuela
"O que já não oferece dúvidas são os efeitos desta nova guerra no médio oriente, com a inevitável escalada nos preços do brent e na subida dos preços dos combustíveis e gás natural nos mercados mundiais. Serão uma vez mais os consumidores a pagarem a fatura, sem apelo nem agravo". Invictamente, por João Fróis
Ainda nos perguntávamos como já tinham passado quatro anos desde a invasão russa na Ucrânia e eis que Donald Trump decide, junto com Israel, atacar o Irão. Ataque cirúrgico que incidiu sobre o líder supremo da antiga Pérsia, Ali Khamenei, causando-lhe a morte. Trump não perde tempo com conversações e se não antevê almejar os seus objetivos parte para o ataque, sem pedir licença. Já assim fora na Venezuela com a captura de Nicolás Maduro. Perante tal demonstração de força e arrogância o mundo questionou sobre o atropelamento do direito internacional, essa antiga convenção entre países e que nunca passou disso mesmo, um acordo tácito de não agressão, mas que sempre cedeu aos desígnios dos mais fortes. Atualmente vivemos um mundo de novos imperialismos e onde tudo se parece resumir a quem manda e decide sobre os destinos globais.
Vladimir Putin invadiu a Crimeia em 2014 e todos assobiaram para o lado, ignorando o que o tempo mostrou ser óbvio, o objetivo era (re)tomar a Ucrânia, o grande produtor agrícola da ex-união soviética e o detentor das maiores jazidas de terras raras, tão essenciais para alimentar as tecnologias mais recentes, sejam chips cibernéticos, baterias automóveis ou semicondutores de toda a ordem. A guerra continua e nada nem ninguém, incluindo Trump, parecem capazes de travar as ofensivas de Moscovo.
Entretanto, Donald Trump com o pretexto de ajudar o povo venezuelano e controlar o tráfico de droga e proteger os EUA, ameaçou e deteve Maduro, vergando rapidamente o ditador, que se percebeu, era claramente um “cão que ladra mas não morde”. Na ONU ouviram-se todo o tipo de protestos contra esta detenção e a violação gritante do direito internacional, mas ninguém conseguiu sequer preocupar o novo polícia do mundo e a sua deriva de ficar na história como o grande pacificador, resolvendo segundo o próprio “dezenas de conflitos” que permitem almejar a paz. Observando a história é inevitável lembrar a tristemente famosa “revolução cultural” de Mao Tse Tung e que matou milhares de chineses inocentes a troco dos ventos da modernização. E que dizer dos milhares de mortos na gelada Sibéria às mãos das punições de Estaline? Os rostos da morte mudam ao longo dos tempos, mas o sangue inocente continua a ser derramado impunemente e nada nem ninguém pode ou quer verdadeiramente travar estas tragédias humanas.
Se na Venezuela cedo se percebeu que pouca ou nenhuma resistência iria haver, já no Irão tudo é dramaticamente diferente. O regime dos ayatollah, instaurado em 1979, ergueu a velha pérsia a uma ditadura teocrática e fortemente armada que rapidamente espalhou tentáculos na região ariana, xiita, e igualmente mais a sul, nas terras dos seus rivais sunitas. Foi assim que o Hezbollah no Líbano se tornou o braço armado do regime às portas Israel, bem acompanhado pela intifada palestiniana e pela sua face mais recente do Hamas na faixa de Gaza. O sonho de destruir Israel tornou-se uma obsessão de Teerão, bem expressa nos investimentos na tecnologia nuclear pelo regime e que o mundo ocidental sempre tentou travar. Foi esta ameaça iminente que levou Trump a não hesitar em atacar a matar, numa conjugação com a mossad de Telavive, a força de elite que mostra níveis de eficiência incomparáveis. Se os dias de ataques de mísseis entre Israel e o Irão no verão de 2025 mostraram que os arsenais de Teerão eram fortes o suficiente para manter a ameaça bem real, percebe-se agora que o intuito é delapidar as reservas de drones e mísseis de modo a vergar o regime xiita. Mas as incógnitas permanecem e ninguém ousa arriscar prognósticos. O que já não oferece dúvidas são os efeitos desta nova guerra no médio oriente, com a inevitável escalada nos preços do brent e na subida dos preços dos combustíveis e gás natural nos mercados mundiais. Serão uma vez mais os consumidores a pagarem a fatura, sem apelo nem agravo. Pelo meio as taxas de juro do Euribor ameaçam subir e a eletricidade irá também ser mais cara a curto prazo. A pergunta que se impõe é a de até quando iremos ter guerra no Irão, sendo certo que dificilmente o regime será aniquilado, dada a dimensão da guarda revolucionária e dos paióis subterrâneos que o regime construiu ao longo de décadas e que agora poderá garantir a resistência de Teerão por tempo indeterminado. Donald Trump saberia que o Irão não é a Venezuela e que esta guerra traria males muito maiores ao mundo que a rápida detenção de Maduro.
E uma vez mais a Europa está a passar ao lado de mais este conflito, sem força nem unidade interna que possam sequer marcar uma posição perante Washington. Neste mundo onde o petróleo continua a ser a fonte energética prevalente, a recente cimeira europeia sobre energia nuclear mostra as fraquezas que a união tem dentro de si. Úrsula von der leien reconhece o erro estratégico de a EU não ter apostado seriamente na energia nuclear, onde apenas a França há muito domina, dado o velho continente não ter nem petróleo nem gás natural. Mais vale tarde que nunca diz o adágio, mas será que ainda vamos a tempo de evitar o declínio europeu e ficarmos nas mãos dos novos imperadores, Trump, Xi Jin Ping e Putin?








