Hoje em dia, menor a sabedoria (I)

Crónica de José Caria Luís

Rima e é verdade. Parece paradoxal, mas, pelo que nos é dado ver, não o é. Depois de muito sabermos (dizia-se) e pouco ou nada de substantivo retermos, conclui-se que isto da sabedoria é um fenómeno de que muitos se arvoram, mas que transcende o cidadão comum. Já lá dizia o grego Sócrates: “Só sei que nada sei.”Talvez com o intuito de mostrar a fraqueza alheia, que não a sua.

Pois eu, em plena década de 70 do século XX, tive um professor de Resistência de Materiais que, filosofando para a área da construção civil, comparando a atividade dos empreiteiros gaioleiros, cuja mira era o lucro fácil, com a base científica dessa indústria, dizia, amiúde: “Meus senhores, a ignorância é atrevida! E felizes dos ignorantes.”

Tudo aquilo para dizer que, como alguém por cá disse: “O saber não ocupa lugar”; logo outros contrapunham afirmando que não senhor, nada mais falso, pois quem sabia é que ocupava um bom lugar, referindo-se a empregos, por certo. E se a cultura é aquilo que resta, depois de se esquecer tudo o que se aprendeu, o importante é lançar a confusão, para não ter que a eliminar.

Filosofias à parte – algumas baratas – muito eu gostava de saber quando é que o fatídico Covide nos desampara a loja. Será que a seu (meu) tempo saberei?

Contudo, tal como as famigeradas e contraditórias vacinas e vacinações, o que, também, se encontra em lista de espera são as crónicas medievais do séc. XX. Estas, porém, apenas têm que esperar um mês, de cada vez, claro.

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Agora, em meados de 60, já o obscurantismo, que durante séculos, confinou o sexo feminino, estava praticamente erradicado. À parte de algumas leis ditatoriais que se arrastavam no tempo, como, por exemplo, o ato de votar, passaportes e casamentos condicionados, e que só a partir da Revolução seriam revogadas, as raparigas, sedentas de entrarem num processo emancipatório, davam largas às suas legítimas aspirações. Minissaia, vestido curto e cabelo arranjado (a Cilita agradecia), mostrando-se pelas ruas da terra. O uso descomplexado de biquíni na praia, eram conquistas impensáveis dez anos antes. Mesmo assim, ainda havia pais nhurras, de ventas torcidas, que só permitiam que as suas filhas cortassem o cabelo quando atingissem a idade de dezoito anos, tal como a autorização para encetar o namoro. Era evidente que, no que concernia a esta última, a emancipação das garotas era muito subjetiva: se o fulano, aspirante a genro, tivesse por pecúlio apenas uma viola rasca e um crucifixo de pechisbeque, nem sempre os dezoito anos eram cumpridos, antes retardados para os vinte ou mais, à espera de melhor sorte, de melhores dias. No caso oposto, o rapazola, pretendente à mão da pequena, nem precisava de ser filho de fidalgo, bastava-lhe ser filho de algo (leia-se empresário, agrário ou lojista), para que a regra dos 18 fosse varrida para debaixo do tapete. O que mais interessava era o futuro da menina. Pouco tempo depois, com a entrada em uso das calças, os problemas de autorização paterna voltavam à liça. Conheci alguém que, perante tal desaforo, afirmou que no dia em que as suas filhas usassem calças ele vestiria saias. É claro que a primeira foi verdade, a segunda, não.

Mas a saga vai continuar.

*Artigo publicado na edição de abril do Jornal de Cá.

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