A memória fragmentada

"O bom senso poupar-nos-ia muitas vezes a certos atentados que constatamos no espaço público e que em tantas ocasiões nos ferem o olhar, tal é a poluição visual que provocam". Crónica Sem Pressas, por Eurico Rodrigues Conde

Há dias, ao passar pela Travessa da Reboleira, deparei-me com algo que nunca tinha visto ou, quem sabe, nunca me despertou a atenção anteriormente: ali, desordenadamente e à vista de todos, um pouco da memória do Cartaxo, esquecida e com outra segunda utilidade, não como placas toponímicas, mas como revestimento aleatório de uma parede.

De quantas ruas se alteraram os nomes, esquecendo a história e o topónimo que outrora lhes deram origem?

Desde jovem, sempre me preocupei muito com o facto de, em diversas circunstâncias e pelas mais variadas razões, constatar que, com facilidade, se descarta o passado, seja isso feito através da alienação de bens e equipamentos públicos, seja através do esquecimento das tradições orais e dos costumes. Estaremos condenados a um permanente e contínuo apagar de memórias e da nossa História Local?!?

Quantos bens deste tipo se foram e vão perdendo à medida que o tempo passa? Quantas memórias se vão dissipando a pouco e pouco, alterando desse modo o espaço público, bem como o modo como usufruímos do mesmo, mudando também a forma como nos relacionamos com os outros?

Quem não se recorda dos belíssimos candeeiros em ferro fundido que existiam no nosso Passeio Público de excelência, que era o jardim da Câmara? E os bancos vermelhos ondulados, que nos convidavam a sentar para uma boa conversa ou só para ver quem passava?

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Pois é, há coisas que estão irremediavelmente perdidas. Resta a memória.

Mas outras há que ainda vamos a tempo de preservar. Para que a memória não se perca. Para que o Cartaxo, a bela vila ribatejana, agora cidade, mantenha ainda alguns dos seus traços característicos, seria recomendável que as intervenções, por parte dos proprietários privados fosse muito mais sensata do que tantas vezes o têm sido as intervenções do Estado. É o que se pede, nestes tempos em que pouco ou nada resta.

Quando um lugar ou determinado bem é destruído, não se perdem apenas tijolos e argamassa ou, neste caso azulejos. Perde-se a capacidade de materializar a memória e, neste caso, memória narrativa.

 As ruínas ou a ausência do espaço podem até intensificar a, tão nossa, saudade e a nostalgia, mas também geram um vazio: as histórias deixam de ter um “endereço” concreto onde possam ser contadas, visitadas e transmitidas.

No nosso tempo, tem havido muitas vezes, por parte das entidades várias que gerem as nossas cidades e vilas, um horror ao passado, no que concerne aos edifícios de apoio, ao mobiliário urbano, à calçada portuguesa, aos jardins e até, comprovadamente, nem as placas toponímicas escaparam da fúria da modernidade… e eram tão bonitas, estas!!!

Vemos equipamentos e edifícios de tempos passados, de boa construção, elaborados com materiais duráveis e de excelente qualidade, a serem substituídos por equipamentos com qualidade de construção duvidosa e com materiais cuja durabilidade é efémera e a degradação é evidente pouco tempo após a sua aplicação.

Os tempos que correm, impõem o instantâneo e o básico (salvo raras e honrosas excepções!), porque tempo é dinheiro, impõem modas e obrigam a que a organização do espaço público esteja tantas vezes dependente de um gabinete qualquer, que aplica o mesmo tipo de soluções e “receitas urbanísticas” tanto em Boticas, como em Vila do Bispo. Qual de vós, entre os que perdem tempo a ler estas linhas, não vos deparastes já com um pilarete de metal em Albufeira, cujo “primo” não tenha visto já no Cartaxo?!?

O bom senso poupar-nos-ia muitas vezes a certos atentados que constatamos no espaço público e que em tantas ocasiões nos ferem o olhar, tal é a poluição visual que provocam.

Por isso, às vezes, fecho os olhos.

 

* O Autor conserva a antiga ortografia. (Licenciado em Conservação e Restauro de Bens Culturais/ Conservador-restaurador de Obras de Arte)

 


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