2021 – Calendário de bolso personalizado

Opinião de Afonso Morango

2021 acabou e, embora 2020 tenha abanado o barco como há muito não acontecia, o mais recente ano findado não deu tréguas.

O início nem foi tão soturno quanto isso, ainda assim. Joe Biden tomou posso como o mais recente presidente dos Estados Unidos da América e um pouco por todo o mundo respirava-se de alívio, pois “A América estava de volta”. No entanto, com o passar dos meses, a apressada retirada do Afeganistão e a desastrada implantação do AUKUS também levantaram dúvidas sobre a competência da administração Biden, especialmente em matéria de negócios estrangeiros, que, para começar, era apontada como a sua maior virtude. Por outro lado, a luta contra o caráter divisivo da mais recente pandemia tem fustigado Biden e os seus assessores. Os norte-americanos partiram de divisões que já existiam antes da pandemia e exacerbaram-nas ao máximo. E, embora não possamos dizer que se trata de um fenómeno exclusivamente norte-americano, a verdade é que o negacionismo encontra o seu expoente máximo na “terra das oportunidades”. Tudo isto contribui para um índice de aprovação do mais recente ocupante da Casa Branca cada vez mais preocupante e as probabilidades de os republicanos recuperarem posições fulcrais no Congresso no próximo ano aumentam a cada semana que passa. A comunidade internacional preocupa-se agora com a possibilidade do diplomata do Twitter, antecessor de Biden, voltar à Sala Oval.

Por outro lado, António Guterres passou grande parte do ano dedicado a alertar para o “código vermelho da humanidade”. Enfrentamos fenómenos climáticos cada vez mais extremos e catastróficos e, a menos que medidas eficazes sejam de facto tomadas, o relógio do clima avançará, deixando-nos para trás, como já tantas espécies foram deixadas. Todavia, não foi necessário ler o relatório de 4000 páginas para saber isso, já que climas extremos dominaram grande parte das notícias ao longo de 2021.

Mas a peça de teatro não se cingiu a estes dois atos. Foi bem mais grandiosa na verdade e, ainda que seja impossível explorá-los devidamente aqui, alguns acontecimentos são dignos de uma página do calendário 2021, caso alguém se lembre de personalizar um. Logo em março, um enorme navio interrompeu grande parte do trânsito mundial no Canal do Suez ao encalhar. O vacilar das cadeias de abastecimento, resultado da falta de oferta e excesso de procura, dariam uma bela página de abril.

Os últimos meses do calendário estariam muito concorridos, mas antes disso teríamos que dedicar todo o mês de agosto aos talibãs e a sua demanda. Ainda durante o verão, os incêndios extremos um pouco por todo o mundo poderiam vir aliados à saudosa COP 26, conferência que dirigiu infindáveis reportagens durante o último trimestre do ano, tendo sido a palavra de ordem em todos os dicionários britânicos durante o mês de outubro.

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Talvez um dos assuntos mais queridos dos portugueses merecesse mais que um mês de destaque. Foi em 2021 que as vacinas (e o vice-almirante Gouveia e Melo) chegaram em força e Portugal esteve na vanguarda (durante alguns meses) nesta questão. Contudo, a Delta e a Ómicron estragaram uns quantos planos e parece que já temos tema para começar em grande o tenebroso ano de 2022 (twenty-twenty too), isto se Putin não decidir ir em frente com o sonho de Lenine.

*Artigo publicado na edição de janeiro do Jornal de Cá.

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