A corrupção em Portugal: o vírus que devora o nosso futuro

"Como jovem cidadão de 18 anos que viu de perto o funcionamento das instituições europeias, recuso-me a aceitar que a corrupção seja uma fatalidade da qual Portugal não se consiga libertar", por Gabriel Aleixo de Pina

No passado dia 5 de maio, tive a honra de representar a Escola Secundária do Cartaxo, o nosso concelho e o país no programa Euroscola, debatendo o futuro da Europa diretamente no Parlamento Europeu, em Estrasburgo. Ali, onde o mote da discussão foi “Media and Democracy: The EU’s action to tackle disinformation”, ficou evidente que a defesa da democracia exige instituições fortes, transparentes e imunes à mentira. No entanto, de regresso a casa, torna-se impossível discutir a integridade democrática sem enfrentar a mais sufocante das nossas crises: a da confiança pública.

 

O Índice de Perceção da Corrupção de 2025 confirmou o pior cenário: o nosso país caiu para os 56 pontos, descendo para o 46⁰ lugar à escala mundial. Esta perda de terreno afasta-nos gravemente da média europeia e demonstra que a corrupção em Portugal já não é um problema de casos isolados. Tornou-se um vírus estrutural que sufoca a economia, mina a democracia e destrói a esperança das novas gerações, asfixiando os jovens que, como eu, querem acreditar no futuro deste país.

 

O impacto mais imediato deste fenómeno reflete-se no bolso de todos os portugueses. Estima-se que a corrupção e os desvios de fundos públicos retiram anualmente milhares de milhões de euros à economia nacional. Cada euro desviado através de concursos públicos viciados, ajustes diretos injustificados ou favorecimentos políticos é um euro que deixa de ser investido nas nossas escolas, na habitação ou na modernização dos hospitais. A corrupção funciona como um imposto oculto e imoral que penaliza quem trabalha e premeia quem sabe contornar as regras.

 

Esta sangria financeira é agravada por um intolerável vazio estratégico por parte do Estado. Apesar de a Resolução da Assembleia da República n⁰ 82/2025, de março do ano passado, ter recomendado expressamente ao Governo a elaboração urgente da nova Estratégia Nacional Anticorrupção 2025-2028, a verdade é que o documento continua por aprovar. Esta paralisia legislativa lançou o país para o escuro. A atual Agenda Anticorrupção do Executivo revelou -se insuficiente e desestruturada, facto espelhado no mais recente relatório da OCDE.

 

Segundo a organização internacional, Portugal recuou gravemente e cumpre agora apenas 20% dos critérios relativos à solidez de um quadro estratégico de integridade pública. Sem uma estratégia global aprovada e metas calendarizadas, o combate ao crime de colarinho branco resume-se a propaganda política e reações avulsas.

 

A par desta inércia governativa, o sufoco das autoridades de investigação e o bloqueio do nosso sistema judicial criam o cenário perfeito para a impunidade. O problema não reside na eficácia policial: no ano passado, a Polícia Judiciária registou 408 inquéritos específicos por crimes de corrupção, traduzindo um crescimento expressivo de 35,4% em relação a 2024. A investigação criminal trabalha e expõe o fenómeno, mas bate de frente contra uma justiça lenta e asfixiada. De acordo com os dados oficiais do próprio Mecanismo Nacional Anticorrupção (MENAC), a duração média dos processos associados a estes crimes atinge um teto escandaloso de até 178 meses, ou seja, quase 15 anos de arrastamento nos tribunais. Uma justiça que demora uma década e meia a produzir um desfecho eficaz deixa de ser justiça; transforma-se num desgaste permanente para o erário público e num convite à prescrição.

 

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Para travar esta espiral de impunidade, Portugal precisa urgentemente de adotar uma linha mais dura e sem concessões. O combate eficaz exige reformas penais profundas, começando pela aplicação da proibição vitalícia de exercer quaisquer cargos públicos, políticos ou de gestão em empresas nacionais para todos os condenados por corrupção. Em simultâneo, deve avançar -se com a revogação imediata de todas as regalias acumuladas, incluindo subvenções públicas, pensões vitalícias ou condecorações outorgadas. A estas medidas deve somar-se o confisco alargado de bens sempre que o património do arguido seja manifestamente incongruente com os seus rendimentos declarados. A moldura penal para crimes económicos deve ser severamente agravada, eliminando as penas suspensas e os recursos dilatórios infinitos. O crime só deixará de compensar quando o prevaricador souber que arrisca a ruína financeira total, o banimento perpétuo da vida pública e a prisão efetiva.

 

Como jovem cidadão de 18 anos que viu de perto o funcionamento das instituições europeias, recuso-me a aceitar que a corrupção seja uma fatalidade da qual Portugal não se consiga libertar. O país não pode continuar a arrastar os pés. Exigir a aprovação da Estratégia Nacional Anticorrupção 2025-2028, implementar leis punitivas de linha dura e dotar os tribunais de meios para responder ao volume crescente de inquéritos são passos obrigatórios. Se queremos salvar o futuro do país e garantir que a minha geração não é forçada a emigrar por falta de oportunidades justas, temos de deixar de ser tolerantes com quem nos rouba o futuro.
Isuvol
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