Câmara do Cartaxo aprova acordo para proteger e promover a tradição dos chocalhos
A Câmara Municipal do Cartaxo aprovou por unanimidade, na reunião do executivo que decorreu na quinta-feira, 6 de agosto, um acordo de cooperação, entre quatro Municípios e a Entidade Regional de Turismo, destinado a proteger e promover a tradição e o fabrico de chocalhos, bem como o património cultural associado. O acordo prevê o desenvolvimento de iniciativas de divulgação e valorização desta arte, cuja produção se mantém na freguesia da Ereira, onde está localizada a única fábrica de chocalhos do concelho e do Ribatejo.
O fabrico tradicional de chocalhos é uma atividade metalúrgica associada essencialmente à pastorícia, sendo os chocalhos utilizados para localizar os animais e acompanhar o seu ritmo e atividade. Em Portugal, esta tradição está historicamente ligada a dois tipos de fabricantes: o ferreiro, que produzia chocalhos ocasionalmente, e o chocalheiro, que se dedicava exclusivamente ao fabrico deste objeto sonoro. Esta é uma arte que, desde 2014, integra a Lista da UNESCO do Património Cultural Imaterial da Humanidade que necessita de Salvaguarda Urgente.
Atualmente, o fabrico tradicional de chocalhos encontra-se reduzido a um pequeno número de fábricas e oficinas que continuam a dedicar-se, de forma mais ou menos regular, à produção através de métodos tradicionais. Ao mesmo tempo, o contexto de manufatura tem vindo a sofrer alterações, verificando-se uma tendência para assumir um cariz mais industrial e para a produção ser realizada em unidades fabris inseridas em diferentes contextos.
Uma dessas unidades é a Fábrica de Chocalhos A SIM SIM, localizada na freguesia da Ereira, onde a produção se distribui entre um pavilhão fabril moderno e uma oficina tradicional com um forno. A arte chocalheira chegou à freguesia através de Feliciano Sim Sim, natural do Alentejo e proveniente de uma família de chocalheiros, que se juntou a Artur Silva, proprietário de uma oficina de correaria, passando a dedicar-se também ao fabrico de chocalhos.
No concelho do Cartaxo, na Ereira, na Fábrica A SIM SIM, os visitantes podem conhecer o processo de produção e, em determinadas circunstâncias, participar diretamente em parte do fabrico, nomeadamente na chamada “mesa do embarramento”, onde podem participar na “embarra” do chocalho.
Além da Ereira, existem referências ao fabrico de chocalhos em Estremoz, Reguengos de Monsaraz e Viana do Alentejo, sendo reconhecida uma particular relevância histórica e social à freguesia das Alcáçovas, no concelho de Viana do Alentejo, onde se encontra a Fábrica Pardalinho, considerada uma das mais relevantes unidades de produção de chocalhos do país.
O acordo aprovado pretende também alargar a experiência turística associada à manufatura dos chocalhos, nesse âmbito, a tradição dos chocalhos está representada no Museu Rural e do Vinho do Concelho do Cartaxo, situado na Quinta das Pratas, através de uma exposição de exemplares de diferentes tipos e tamanhos. A coleção integra a exposição permanente “À Descoberta da Cultura Rural”, dedicada aos elementos geográficos, etnográficos e históricos do concelho, e representa a ligação do território à atividade pastoril.

Depois de algumas visitas à Fábrica A SIM SIM, com a equipa da Câmara Municipal do Cartaxo, para a produção de um vídeo exemplificativo do processo de fabrico dos chocalhos, que pode ser visto no Museu, Maria João Oliveira, vereadora da Cultura, conta ao Jornal de Cá o que viu sobre o processo de fabrico dos chocalhos. “Começa com o corte da chapa, onde o chocalho toma a sua forma com as ferramentas do ferreiro, e é moldado e montado. Depois, é colocado dentro de barro, porque tem que ir a cozer para ser incorporado o cobre na parte metálica já existente”, explica. O chocalho é depois levado ao forno, onde é sujeito a temperaturas entre os 1200 e os 1300 graus. “Quando é retirado, é rolado para que a cor e a espessura fiquem homogéneas e é mergulhado em água para arrefecer. Depois de retirado o barro, é polido e é posto o badalo, que também é feito artesanalmente” No final, é fixada toda a parte em couro, “aquilo a que chamamos de coleira, que depois é colocada nos animais”, acrescenta.
Segundo Maria João Oliveira, “vai ser elaborado um plano de atividades que tem como objetivo a divulgação e a explicação” de toda a arte do fabrico de chocalho. A vereadora destaca ainda a importância do trabalho conjunto entre as entidades envolvidas: “A ideia é que seja sempre um trabalho conjunto dos quatro municípios envolvidos”, Cartaxo, Estremoz, Reguengos de Monsaraz e Viana do Alentejo, e da Entidade Regional de Turismo “para darmos a garantia da salvaguarda e que não deixemos perder esta arte”.









