“Hoje temos uma instituição viva”, garantem Conceição Ferreira e Madalena Lambéria, as duas mulheres que lideram a coletividade mais antiga do Cartaxo

O Jornal de Cá foi até à sede da Sociedade Filarmónica Cartaxense, ao encontro de Conceição Ferreira, presidente da direção, e Madalena Lambéria, vice-presidente. As dirigentes fazem um balanço positivo do trabalho desenvolvido desde que assumiram funções e garantem que a realidade atual da coletividade “não tem nada a ver com aquilo que nós encontrámos”. “Hoje temos uma instituição viva e já muito boa em relação àquilo que estava”, afirma Conceição Ferreira.

A nova direção da Sociedade Filarmónica Cartaxense, em funções desde maio de 2025, tem procurado revitalizar a coletividade, com uma aposta no aumento das modalidades, na formação musical e na recuperação da banda filarmónica.

Uma das principais mudanças verificadas durante este período foi o aumento do número de modalidades disponibilizadas pela coletividade. Na área da música, a oferta foi alargada a vários instrumentos que anteriormente não existiam. Se inicialmente eram lecionados apenas piano e violino, atualmente a Sociedade Filarmónica Cartaxense disponibiliza também aulas de acordeão, saxofone, trompete, trombone, trompa, bombardino e clarinete, com professores qualificados para cada instrumento.

A oferta foi igualmente reforçada com atividades de carácter mais genérico, direcionadas para o bem-estar pessoal e social. Entre elas encontram-se as danças sociais, a motricidade sénior, o pilates, as técnicas de postura corporal, o yoga e as técnicas de relaxamento.

Esta diversificação procura também chegar a um público mais sénior, uma faixa etária para a qual a instituição, segundo as dirigentes, não estava tão vocacionada. “É uma aposta”, explica Madalena Lambéria, lembrando que o ano passado teve uma boa adesão e que a expectativa é que a procura se mantenha este ano.

No último ano letivo, a Sociedade Filarmónica Cartaxense terminou com cerca de 300 alunos, com idades entre os quatro e os 80 anos. A direção pretende continuar a aumentar este número, embora reconheça que as inscrições são uma incógnita até ao início das atividades, uma vez que permanecem abertas diariamente.

Para facilitar a entrada de novos alunos, a coletividade vai manter este ano uma iniciativa que começou no ano passado: as aulas abertas. Durante a primeira semana, os interessados podem assistir e participar nas aulas, conhecer o funcionamento das modalidades e só depois decidir se pretendem efetuar a inscrição. Segundo as dirigentes, a iniciativa revelou-se bastante positiva no ano passado.

A recuperação da banda filarmónica é outra das apostas da direção. Conceição Ferreira considera que “a filarmónica sem banda não é a filarmónica” e destaca a adesão de músicos. Atualmente, a banda conta com cerca de 25 elementos efetivos, um número considerado significativo face à situação encontrada pela atual direção. Para além dos músicos efetivos, a banda conta também com a colaboração de elementos de outras bandas, sobretudo de diferentes freguesias do concelho do Cartaxo, que se deslocam aos ensaios e participam nos eventos sempre que têm disponibilidade.

A direção tem procurado, ao mesmo tempo, criar uma ligação entre a academia de música e a banda. “Temos feito um grande esforço para ter professores nas modalidades individuais para depois os alunos poderem entrar na banda”, explica Madalena Lambéria. Alguns dos alunos mais novos já frequentam as aulas de instrumentos e integram também a banda.

A recuperação da banda foi, contudo, um processo que começou praticamente do zero. Madalena Lambéria recorda que, depois da tomada de posse, assistiu ao primeiro ensaio e encontrou apenas três músicos e o maestro. Depois de falar com o responsável, a direção percebeu que “a banda estava desmantelada e foi preciso começar praticamente do zero”. O contacto com músicos que já conhecia e a realização de duas reuniões permitiram recuperar alguns elementos, que posteriormente foram trazendo outros músicos.

Atualmente, Carlos Gonçalves assume um papel central neste trabalho. Além de maestro da banda, é também responsável pela academia de música. As dirigentes destacam não só os seus conhecimentos musicais, mas também a capacidade de trabalhar com crianças e de estabelecer uma relação próxima com alunos e pais. Para Conceição Ferreira, o maestro tem conseguido melhorar a banda e, simultaneamente, criar uma ligação entre diferentes gerações.

A formação de novos músicos é, aliás, uma das grandes apostas da direção. Na academia, as aulas dos diferentes instrumentos têm como principal objetivo preparar os alunos para, no futuro, integrarem a banda. Um processo que, segundo Madalena Lambéria, exige tempo, paciência e cuidado, uma vez que algumas crianças demoram anos a adquirir competências como a leitura de uma pauta musical.

Apesar do crescimento da atividade, a Sociedade Filarmónica Cartaxense continua a enfrentar dificuldades financeiras. A direção procura melhorar as condições de trabalho dos professores, mas admite que a coletividade não é atualmente sustentável apenas com as suas receitas. A receita mensal não cobre todas as despesas relacionadas com a manutenção do edifício, obrigando à realização regular de iniciativas para angariar fundos.

Entre os principais objetivos estão também as obras necessárias à legalização completa do edifício. Existem duas intervenções consideradas essenciais: a adaptação de uma casa de banho para pessoas com mobilidade reduzida e a instalação de um elevador com a mesma finalidade. A direção já dispõe de verba para a primeira intervenção, mas ainda não conseguiu reunir o montante necessário para o elevador.

Para angariar fundos, a Sociedade Filarmónica participa nos eventos que consegue e organiza iniciativas como o arraial, a caminhada de São Martinho e noites de fado. Durante as férias escolares são também promovidas férias culturais e desportivas, destinadas a dar a conhecer às crianças as diferentes atividades da instituição e a incentivar futuras inscrições. Apesar das limitações, as dirigentes entendem que não existe falta de espaço para os alunos. A prioridade passa, neste momento, por melhorar as condições existentes e, sobretudo, concluir o processo de legalização do edifício.

A formação musical tem produzido também resultados no acesso ao ensino articulado do Conservatório de Santarém. A Sociedade Filarmónica prepara alunos que demonstram vontade de seguir este percurso, sendo necessário que estejam no 1.º ciclo, uma vez que o acesso ao ensino articulado acontece quando transitam para o 5.º ano.

Este ano, três alunos da coletividade concorreram e conseguiram entrar, resultado que foi recebido pela direção com “uma alegria enorme e um orgulho”. As dirigentes destacam ainda a formação dos professores, todos licenciados e alguns com mestrado, considerando que estes resultados demonstram a qualidade do trabalho desenvolvido na academia.

O ensino articulado permite que os alunos frequentem algumas disciplinas no conservatório em vez de as realizarem na escola. Entre as disciplinas substituídas encontram-se Educação Visual e Educação Tecnológica.

Para Madalena Lambéria, esta é a primeira experiência ligada ao associativismo. Foi convidada a integrar a direção por um dos elementos que formou a lista, constituída por pessoas que já tinham passado por outras direções e que entendiam ser necessário substituir a anterior, sobretudo devido à questão da legalização do edifício.

Conceição Ferreira recebeu o convite para assumir a presidência e admite que, inicialmente, estava “um bocado renitente”. Acabou, contudo, por aceitar e afirma ter entrado “de alma e coração”. Atualmente, considera que a direção é “muito coesa, muito forte e com grande vontade de acabarmos de legalizar isto o mais rápido possível”. Para a presidente, “é um orgulho muito grande fazer parte desta casa e ver renascer das cinzas a filarmónica”.

Madalena Lambéria começou por integrar a direção como vogal, mas acabou por assumir o cargo de vice-presidente a convite de Conceição Ferreira. A divisão de funções é clara: Madalena acompanha sobretudo os alunos, professores, horários e atividades, enquanto Conceição está mais ligada às contas e às reuniões. Ambas consideram que esta distribuição de responsabilidades tem funcionado bem.

No final, a direção deixa um apelo à comunidade do Cartaxo para que conheça melhor a oferta da Sociedade Filarmónica Cartaxense e participe nas suas atividades.

Conceição Ferreira agradece aos sócios e também aos não-sócios que têm filhos a estudar e a praticar na instituição, deixando um pedido: “tragam mais um amigo, porque a porta está aberta para todos”. Aos antigos sócios, deixa ainda o convite para regressarem, defendendo que “vale a pena ser sócio da filarmónica”.

Madalena Lambéria reforça o apelo e convida a população do Cartaxo a conhecer e experimentar as diferentes modalidades disponíveis. “Quanto mais alunos tivermos melhor para os professores, melhor para a filarmónica, melhor para todos nós”, afirma.

A recuperação do número de associados continua, contudo, a ser um desafio. A Sociedade Filarmónica Cartaxense chegou a ter cerca de 2000 sócios, mas atualmente o número daqueles que pagam as quotas é bastante reduzido. “Houve um afastamento dos sócios desta casa e vai ser necessário muito tempo para os fazer voltar, mas é um dia de cada vez”, reconhecem as dirigentes.

Isuvol
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