A lança africana

"A escravidão assume hoje novas faces e não estão a haver atitudes sérias que a impeçam por quem de direito e é eleito para tomar decisões na defesa dos superiores interesses de cada nação per si e da união na sua globalidade". Por João Fróis

Ceuta tem estado na ordem do dia pelas piores razões. O antigo enclave português conquistado por D. João I em 1415, mostra agora a face negra das tensões migratórias que assolam a velha europa e agitam os corredores de Bruxelas e Estrasburgo, mas principalmente os de Madrid. Este território integrante da vizinha Espanha desde os tempos da restauração, em que optaram por não retroceder para domínio lusitano, vive dias de pânico para a população residente, confrontada com a entrada abrupta de milhares de migrantes vindos quer da vizinha Marrocos quer da África subsariana. E se grande parte retornou à sua origem, alguns milhares ficaram pela cidade, causando medo junto das famílias pelas notícias de assaltos, violações e entrada forçada em habitações. E que dizer da atitude do governo espanhol?

Pedro Sanchéz, primeiro ministro espanhol, envolto em polémicas que o ameaçam derrubar, nomeadamente o escândalo familiar com o seu irmão a ser arguido numa acusação de corrupção administrativa na Extremadura, optou por uma abordagem tacticista junto do governo marroquino e permitiu que os migrantes se instalassem em Ceuta, gerando confrontos com os habitantes e uma tensão social generalizada que gerou imagens de violência sem paralelo. A intervenção policial foi a conta gotas e as negociações com Marrocos permitiram perceber que a apelidada invasão do território terá de alguma forma sido permitida por Rabat quando o seu governo deixou cair a face ao propor a devolução de Ceuta e Melilla ao reino norte africano.

Sanchéz apressou-se a criticar a sua congénere italiana, Giorgia Meloni, quando esta propôs a suspensão dos acordos de Schengen e da livre circulação a Espanha, pelo receio de os migrantes entrarem no espaço europeu e se lhes perder o rasto. A tensão política no seio da união europeia assombrou Bruxelas e a diplomacia interna teve de rapidamente estancar esta potencial hemorragia que uma vez mais ameaça a unidade dos 27. Basta recordar as inúmeras ocasiões em que os migrantes chegaram à ilha italiana de Lampedusa e as diferentes reações que esta tensão gerou entre os vizinhos mediterrâneos para perceber que pouco mudou na política de tratamento dos fenómenos migratórios, assim como medidas efetivas que ajudem os países de origem dos migrantes a lhes proporcionarem condições suficientes para uma vida digna, evitando a compulsão migratória de fuga de guerras, por falta de meios de subsistência e da esperança num futuro possível.

A velha europa sempre foi um destino apetecível para quem procura uma vida melhor e a sua constante necessidade de mão de obra para setores onde a oferta interna escasseia sempre abriu portas a oportunidades de trabalho a quem efetivamente o procure. No entanto e como é bem lembrado pelos partidos populistas e grupos radicais que pululam no seio da união europeia, muitos dos que vêm não procuram trabalho e são peões de seitas e fações criminosas que exploram a miséria humana sem qualquer pudor. A escravidão assume hoje novas faces e não estão a haver atitudes sérias que a impeçam por quem de direito e é eleito para tomar decisões na defesa dos superiores interesses de cada nação per si e da união na sua globalidade.

A falta de pulso de Sanchéz só mostra uma outra face das muitas fragilidades europeias, a juntar à falta de poder militar para enfrentar a ameaça russa. Será Ceuta a derradeira lança africana na europa?

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