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Por João Fróis

Há 134 anos, em Chicago, um grupo de trabalhadores saiu à rua manifestando-se numa greve inédita, reclamando por melhores condições de trabalho, ocupação que chegava a ter 17 horas diárias. A jornada pretendia que estes abusos findassem e esta luta veio a inspirar outras tantas em todo o mundo, reclamando mais direitos a quem trabalha e jornadas equilibradas e justas. Se hoje em dia temos por regra assente oito horas de trabalho diário, devemo-lo a estes valorosos norte-americanos.

Hoje, que vivemos em confinamento mundial e em que um vírus ameaça a economia mundial e a forma como vivemos. No dia do trabalhador é o desemprego que assume as rédeas mediáticas. No país onde este dia ficou marcado na História, 30 milhões de norte-americanos estão sem trabalho, uma crise ainda maior que a decorrente da de 2008 de cariz financeiro. E em todo o mundo são milhões que já perderam os seus empregos e outros tantos que estão sob ameaça de os perder. A catástrofe social é já uma realidade.

Mas voltemos à essência do que este dia celebra. O trabalho.

Ao longo dos tempos foram muitos os que se debruçaram sobre a sua natureza e implicações na vida dos trabalhadores.

O século VI antes de Cristo foi profícuo em pensadores.

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Na China, o filósofo Confúcio ensinava “escolhe um trabalho de que gostes e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”. A busca hedonista pelo prazer no desempenho da tarefa era já subjacente à necessidade. Também o mestre religioso Siddharta Gautama, conhecido por Buda dizia “sua tarefa é descobrir o seu trabalho e, então, com todo o seu coração, dedicar-se a ele”. O caminho da descoberta e a paixão pela atividade estão aqui bem patentes, com a deriva humana na busca da sua liberdade de escolha.

Na Grécia clássica, o matemático e pensador Pitágoras, famoso pelo seu teorema, afirmava “com organização e tempo, acha-se o segredo de fazer tudo bem feito”. Mais que a liberdade e o prazer, era a busca da perfeição constante que marcava os tempos.

Contemporâneo a Cristo, o romano Séneca, advogado e escritor, defendia “trabalha como se vivesses para sempre. Ama como se fosses morrer hoje”. O equilíbrio entre a ocupação e a fruição individual, assumia já aqui um papel importante para o bom desempenho e entrega ao mesmo.

Séculos volvidos, o tido como maior génio de sempre, Leonardo da Vinci, afirmava a intemporalidade da obra quando dizia “que o teu trabalho seja perfeito para que mesmo depois da tua morte, ele permaneça”. Este inventor, matemático, pintor, escultor e mestre de mil ofícios, via na criação a elevação do trabalho a algo maior que o simples desempenho. A imortalidade atingia-se na perpetuação da obra nascida do trabalho.

No século XVIII, o iluminista e defensor das liberdades civis e religiosas que ficou na história como Voltaire, afirmava “o trabalho poupa-nos a três grandes males: tédio, vício e necessidade”. A virtude em contraponto com o ócio, os vícios e a indigência.

Mas a revolução industrial transformou o peso do trabalho na ocupação do tempo. A mecanização obrigou a horários prolongados levando a abusos que escravizavam os trabalhadores. Foi esta realidade que esteve na génese dos protestos de Chicago.

E com a busca do lucro, o dinheiro assumiu um papel determinante que viria a inspirar as obras de vários pensadores da época.

Karl Marx, filósofo e historiador do séc. XIX, dedicou a sua obra à luta de classes, contra os abusos a que os trabalhadores eram sujeitos. O autor da obra “O capital” afirmava “o dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do homem; a essência domina-o e ele adora-a”. O dinheiro como o grande mal social, na vertigem entre a necessidade de o ter e os vícios da sua busca constante.

Entre os séculos XIX e XX, foi um engenheiro mecânico norte-americano que viria a criar o conceito modernista da montagem em série. Henry Ford, na sua fábrica automóvel, aplicou este conceito e lançou os alicerces da mecanização e produção que marcaram a forma como o mundo veio a trabalhar e produzir, conseguindo níveis até então dificilmente imagináveis. O autor de 161 patentes inventivas, afirmava “não é o empregador quem paga os salários, é o cliente”. Esta nova visão do trabalho veio a transformar o mundo e ainda hoje nos reinventamos neste conceito de foco no cliente.

Se dúvidas houvesse da importância do cliente, basta olharmos em redor e ver o que está a acontecer a este mundo assente na oferta e na procura. Sem clientes não há consumo e sem este não há escoamento para a produção e sustentabilidade para os serviços que o acompanham.

O mundo está em transformação constante e esta crise mundial irá ter impactos profundos que ainda não se conseguem vislumbrar em toda a sua dimensão.

O trabalho é hoje um bem que voltou a ter uma importância que andava esquecida. Sem esta rede gigantesca de interdependências em que o consumo gera fluxos produtivos incessantes, todos estamos no fio da navalha, face ao abismo onde já tantos desesperam.

Sejam quais forem os caminhos que a economia mundial venha a traçar, o trabalho continuará a ser a ocupação principal das nossas vidas e tudo irá girar em seu redor. A fruição é essencial mas a sua sustentabilidade assenta no equilíbrio entre o que produzimos e o que consumimos.

Saibamos honrar todos o valor do trabalho e ajudar à sua reinvenção e justa distribuição, atenuando as desigualdades e conflitos. 134 anos depois, este 1º de Maio poderá ser um virar de página. Para onde ainda vamos ver!

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