Voltemos ao bem comum, sim?

Causa Pública, por Elvira Tristão

Nas últimas semanas, o espetáculo proporcionado pelos media convida a revisitar “As dez estratégias de manipulação mediática” de Noam Chomsky, criadas para criar um senso-comum acrítico e fazer a população agir segundo os interesses das classes dominantes. Leu bem. Eu disse “dominantes”, não maioritárias.

A primeira delas é a distração. Enquanto andamos distraídos com a novela da Comissão de Inquérito da TAP, que degenerou no caso do adjunto do Ministro, o país deixou de estar informado sobre o essencial. Assim, passam despercebidas as notícias dos lucros enormes da banca, e das dificuldades das famílias sem meios para pagar o crédito à habitação.

A segunda estratégia é criar problemas para oferecer soluções. Eis um exemplo: enfraquecemos o papel regulador do Estado, em nome da liberdade da iniciativa privada. Assim, a especulação dos preços, alavancada na pandemia e na guerra, provoca o aumento da inflação, pretexto para o aumento dos juros bancários, para estancar a inflação.

A estratégia do gradualismo ilustro-a com o modo gradual como o papel do Estado se foi reconfigurando. A descentralização desregulada a par da privatização dos meios do estado, a flexibilização, o abaixamento de salários, a precariedade. Ao longo de décadas esta estratégia tem vindo a ser utilizada, independentemente dos rótulos ideológicos de diferentes regimes.

A quarta estratégia, a de diferir: os baixos salários de uma maioria levam à diminuição da receita fiscal do Estado. Os paraísos, os perdões fiscais e os sofisticados sistemas de engenharia financeira enfraquecem o financiamento do Estado e a classe média, constituída por quadros superiores e pequenos empresários, é esmagada pela carga fiscal. Assim, aceitam-se melhor as medidas “dolorosas, mas necessárias”, como fechar serviços públicos ou congelar carreiras na administração pública.

A quinta, a sexta e a sétima estratégias (tratar o público como crianças, explorar as suas emoções em vez da sua reflexão e, com isso, manter os cidadãos na ignorância e na mediocridade) vou juntá-las por economia de espaço, ilustrando todas elas com a difusão de discursos políticos que promovem o populismo. Aqueles políticos que trabalham com seriedade não têm interesse mediático. Trabalham na sombra até que se lhes descubra “um caso ou um casinho” que alimente os shares e as redes sociais, sem preocupações com a verdade ou com a justiça.

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Das estratégias anteriores resulta um sistema político enfraquecido, o contexto para sermos complacentes com a mediocridade da vida pública, injustamente desconsiderando muitos.

A penúltima estratégia está estreitamente relacionada com a naturalização de uma certa conceção de individualismo empreendedor que, perante a adversidade, faz de nós os culpados do que nos acontece. E a décima, fruto dos sistemas de “vigilância eletrónica”, faz de nós presas fáceis, quer dos Estados totalitários quer dos detentores de dados cuja regulação está fora do controlo dos Estados ditos democráticos.

Voltando à primeira estratégia, convinha que não nos distraíssemos. Não estamos em campanha eleitoral (embora pareça). Merecemos uma imprensa isenta, instituições democráticas fortes e um sistema judicial independente dos interesses. Precisamos de serviços do Estado eficazes, eficientes e socialmente justos. A Educação tem, neste contexto, uma importância fundamental e, por isso, é da maior importância a valorização da Escola Pública e dos seus profissionais, a par do reforço da cultura e da participação democráticas.


Texto originalmente publicado na edição digital de junho do Jornal de Cá

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