A (des)inteligência artificial
"Mais que o já useiro pishing, a pirataria está de vento em popa e voa impunemente nos canais noticiosos, cria realidades paralelas e semeia a desconfiança e o medo. Quem arrisca nos dias de hoje aceitar um mero convite numa rede social ou atender uma chamada de spam?" Invictamente, por João Fróis
Está o mundo em alvoroço, com uma crispação social a lembrar o século XX, com ameaças de toda a escala, entre guerras e assomos tirânicos e o maior perigo voa entre nós mais rápido que o som.
Como quase sempre sucede, os piratas estão um passo à frente de toda e qualquer inovação e transformam-na em algo diferente da sua génese. É precisamente isto que está a abalar o mundo como nunca antes, mas sem que se lhe atribua a real importância que verdadeiramente tem. A Inteligência artificial (IA) veio para ficar e está a mudar paradigmas e a acelerar processos no mundo científico e a mudar conceitos e formas de pensar e atuar em múltiplos setores produtivos pelo mundo. Sendo uma realidade recente, ainda não existe uma consciência definitiva sobre o potencial do seu raio de alcance, mas os perigos são já percetíveis ao cidadão comum. Basta atentar à profusão das fake news que inundam o ciberespaço e envenenam as fontes, distorcem factos e lançam inverdades a cada segundo. Paralelamente temos bots a dispararem telefonemas em catadupa com o intuito de captarem a voz dos destinatários e a usarem artificialmente contra si. Mais que o já useiro pishing, a pirataria está de vento em popa e voa impunemente nos canais noticiosos, cria realidades paralelas e semeia a desconfiança e o medo. Quem arrisca nos dias de hoje aceitar um mero convite numa rede social ou atender uma chamada de spam? Já não se trata de dar voz a vendedores de produtos bancários ou energéticos, os perigos vão muito mais longe e não faltará muito para as sabotagens digitais serem virais e lançarem o caos num mundo que colocou as fichas todas na web.
Assim como as guerras estão a dispensar os soldados, com os drones a assumirem as despesas dos ataques como ficou evidente na bem-sucedida ofensiva ucraniana aos bombardeiros russos, também a IA irá substituir muita da mão de obra humana e isso trará problemas económicos e sociais a uma escala sem precedentes na história do trabalho operário. A Europa já está a sentir esse impacto e o pior está por vir. A China transformou-se a uma velocidade vertiginosa e tem hoje uma gigantesca máquina produtiva com suporte em IA, dificilmente acompanhada, para não usar o termo impossível, pelos EUA e pela Europa. O ocidente caiu no erro de há quarenta anos deslocalizar a produção industrial para a ásia, procurando aumentar os lucros (ab)usando da mão de obra barata. A China e também a Índia, o gigante económico que se segue, aproveitaram e desenvolveram-se e criaram uma capacidade produtiva sem igual.
Mas se aí a IA está a ser utilizada em proveito da maior eficiência e rapidez de processos, existem, em paralelo, empresas de pirataria cibernética que estão a ameaçar os sistemas financeiros e económicos mundiais. Não são filmes de ficção científica, são uma realidade omnipresente e uma ameaça muito séria ao modo de vida tal como o conhecemos. A espionagem move-se na dark web e a pirataria usa e abusa das potencialidades da IA para literalmente assaltar o mundo. Muito se fala em segurança das populações mas quase nunca sobre este tipo de ameaças cada dia mais letais. Não defendo limites ao uso da internet, mas a China e outros estados autoritários riem-se das nossas vulnerabilidades e não enjeitam lucrar com elas. Os desafios do mundo ocidental são enormes. Manter as liberdades individuais e coletivas e aumentar os níveis de segurança parecem ser dois mundos inconciliáveis, mas algo terá de ser (bem)feito, sob pena de os populismos se tornarem imparáveis, agitando toda a espécie de medos, sejam os óbvios imigrantes ou os velhos dogmas de crenças ideológicas e religiosas.
Estaremos no limiar do fim da internet livre tal como a conhecemos? E pior ainda, no estertor da democracia, cada vez mais ameaçada pelos autoritarismos? Cumpre lembrar que 71% da população mundial vive sob regimes autocráticos e que ao contrário do que sucedia há quarenta anos, as democracias estão a decair em qualidade e em número. Há cem anos, na ressaca da 1ª guerra mundial estavam a crescer regimes que rapidamente se transformaram em ditaduras e se mantiveram até à década de 80 do século XX. Estamos agora a viver algo semelhante, mas agora em modo acelerado, à boleia dos avanços científicos e da polémica IA. Alguém conseguirá prever a dimensão do que nos espera? Talvez a IA…








