O dia que moldou Portugal

"A história ensina a quem nela quiser aprender, mas vivemos tempos em que assistimos a movimentos revisionistas que tentam negar ou limpar as manchas de outrora". A opinião de João Fróis

Cumprem-se hoje cem anos sobre a marcha revoltosa do general Gomes da Costa e suas tropas, saídos de Braga rumo a Lisboa, e que ditou o fim da 1ª república e o início da ditadura militar.

Se hoje vivemos num clima político global de grande instabilidade e incerteza, há cem anos o cenário era igualmente complexo e tenso na velha europa, devastada pela 1ª guerra mundial. Por cá viviam-se tempos de insurreição, com vários atentados bombistas e forte atividade sindical com laivos anarquistas e que tinham reflexo na vertigem governativa a conhecer 23 elencos diferentes entre 1920 e 1926. A instabilidade conheceu episódios dramáticos como a apelidada noite sangrenta de 1921 em que foram assassinados a tiro vários políticos às mãos de militares revoltosos. Entre 1924 e 1925 a instabilidade agudizou-se, com revoltas militares constantes e a prenunciarem o que viria a suceder em maio de 1926.

A exemplo da célebre marcha fascista sobre Roma, de outubro de 1922, o movimento revoltoso saído da cidade dos arcebispos marchou sobre a capital com o intuito de derrubar a 1ª república, claramente incapaz de liderar o país, vindo com mão forte instaurar a ditadura militar que em pouco tempo passou a ser uma ditadura nacional, implementada pelo então presidente da república Óscar Carmona em março de 1928. Durou até 1933 altura em que que foi aprovada a constituição da república que viria a suportar os longos anos do estado novo.

Na europa os movimentos políticos viravam-se contra os parlamentos e os jogos partidários, atribuindo-lhes a culpa de todos os males que afetavam os povos e os subjugavam com a fome a precaridade. Por cá e de modo a equilibrar as contas públicas o novo regime convidou o professor António de Oliveira Salazar para ministro das finanças, anunciando o fortalecimento da moeda e a estabilização financeira. O seu protagonismo cresceu rapidamente e a sua ascensão a presidente do conselho de ministros foi natural em 1932. No ano seguinte, com a aprovação da nova constituição foi implementado o estado novo, regime autocrático, ditatorial e corporativista que marcou o país nas décadas seguintes de uma forma que ainda hoje divide ideologias e perceções, entre os que sofreram as mãos da censura e da Pide e foram obrigados a lutar na sangrenta descolonização das ex-colónias africanas e os saudosistas do controlo, da estabilidade conservadora e da pretensa segurança garantida pelo regime. Mesmo com a famosa queda da cadeira de Salazar que levou Marcelo Caetano a conduzir os destinos nacionais, só a Revolução dos Cravos de abril de 1974 pôs fim a este regime ditatorial.

A história ensina a quem nela quiser aprender, mas vivemos tempos em que assistimos a movimentos revisionistas que tentam negar ou limpar as manchas de outrora, esquecendo que à época, o que agora é censurável, era a normalidade, por mais aberrante que hoje pareça. Se hoje somos quem somos e temos acesso a toda uma panóplia de bens e serviços, somos o fruto acabado de tudo o que foi acontecendo a múltiplos e complexos níveis sociais, culturais, económicos e políticos. Posto isto, que dizer da atual conjuntura mundial em que as ditaduras ameaçam amordaçar um mundo em colapso anunciado? O outrora farol da democracia, tal como a conhecemos, está agora em deriva autocrática às mãos de um enfant terrible de quase oitenta anos e que teima em fazer do mundo o seu “parque de diversões”. Neste jogo absurdo o outrora inimigo é agora um “amigo” conveniente e Moscovo vai tendo palco para continuar a bombardear a Ucrânia na sua deriva imperialista. Em Pequim reina o cada vez mais poderoso estratega mundial, ditando as leis económicas a que ninguém escapa e que ditarão o rumo inapelável das próximas décadas.

Por cá substituímos as bombas revolucionárias de há cem anos por polémicas sem fim e guerrilhas partidárias que teimam em nada resolver. Também aqui voltamos a nada aprender com a história e a esquecer que quando a política se fecha sobre si mesma e faz subir o nível de insatisfação, cedo ou tarde gera convulsões. E mesmo que a sociedade atual seja bem diferente da dos insurrecionais dias pós 1ª grande guerra, o perigo maior está não tanto numa pretensa revolta popular, mas na ascensão populista que a mesma possa fazer crescer. Há imensos exemplos na história que nos mostram esta verdade sem filtros. Saibamos e queiramos ver e aprender. Algo que temo que cada vez menos aconteça face à cegueira coletiva em que nos afundámos.

Isuvol
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