Os Bailes dos Pagãos (II)

Opinião de José Caria Luís

Naqueles bailes do Pátio das Comédias, havia pessoas que tinham objetivos muito diferenciados: as imprescindíveis moçoilas – sem as quais não havia dança – estavam ali para se divertirem, fazendo-o, por vezes, à custa do alheio, a quem davam tampa a cada passo; as mães, suas protetoras – que os rapazes abominavam e dispensavam de bom grado, até porque, desse ponto de vista, elas só ali estavam para atrapalhar – assumiam a incumbência de serem as mesmas a escolher o rapaz que havia de enlaçar a sua menina no rodopio dançante; os atiradiços rapazolas da vila, das aldeias e, também, da cidade de Santarém, alguns já com largo cadastro, também não estavam isentos de mácula; os neutrais, olheiros que, apenas e tão-somente, vão para ali desfrutar das vistas e beber o seu copito sem se meterem com ninguém, seriam dos mais sensatos presentes na soirée; por último, os pais daquelas donzelas, que serão analisados mais adiante.

Como seria de esperar, nos bailaricos de província em que todos se conheciam, não havia espaço para grandes veleidades por parte da rapaziada. Com o rock e o twist ainda em fase muito embrionária, era lançada pelo conjunto uma série dançante de três números de modinhas mais popularuchas, estilo Mário Simões, e certas brasileiradas, que alternavam com uns românticos slows e boleros das mais variadas origens, como do Nat “King” Cole; Platters e Domenico Modugno. Quer isto dizer que, nestes últimos ritmos, por demais suaves, o par dançante, cujo alvo era o rapaz, estava permanentemente exposto aos olhares de um inexorável júri composto pelas mães das meninas, que não perdia pitada do que se estava a passar na pista. Mas, até aqui, tudo bem! As velhas não eram néscias: se o par da filha fosse filho de algo e tivesse a fama, ao menos, de possuir umas vinhas no campo, terras na charneca ou casas no bairro, as mulheres, não só fechavam os olhos a algum desaforo moral do rapaz, como ainda eram capazes de piscar o olho à filha, incitando-a à luta. Se, ao invés, o rapazola tivesse boa figura, mas como pecúlio apenas exibisse uma viola velha e um crucifixo, não mais seria par para a sua menina. O pior era quando, em vez das mães, eram os pais a fazer o papel de jurados… Depois de bem bebidos, armavam-se em guardiões das donzelas não se coibindo de confrontar, verbal e fisicamente, os rapazes que, momentos antes, faziam par com as suas protegidas, prejudicando o espetáculo e a harmonia que devia reinar na verbena. Já com a mente toldada pelos vapores do éter, chegavam, de modo brusco, à fala com o rapazola, acusando-o de querer abusar da sua menina (algumas já com mais de 25 anos). Houve uma (só uma?) cena no Bar em que o latagão do velho, tipo para 1,90m, pegou o rapaz de 17 anos pela gola do casaco, levantou-o em peso e disse: – Ó pá! Se eu te apanho a balhar naqueles despropósitos com aquela rapariga, que é nhê filha, levas uma solha no focinho que nem sabes de que terra és!

A moçoila, que observara a bruta cena à distância, aproximou-se, passou por mim e, num esgar, com um encolher de ombros, disse: – Ora, deixa lá isso, pá! Ele diz isso a todos os que dançam comigo…

Artigo publicado na edição de setembro do Jornal de Cá.

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