Pela Arte é que vamos

Por Elvira Tristão, professora

Elvira Tristão

Sebastião da Gama imortalizou o verso “Pelo sonho é que vamos”, mas venho propor-vos a sua atualização: “Pela arte é que vamos”. Vem isto a propósito do inspirador espetáculo que os alunos de primeiro ciclo do Agrupamento de Escolas Marcelino Mesquita proporcionaram aos seus professores e familiares, no dia 25 de junho, no Centro Cultural do Cartaxo.

Tratou-se do espetáculo de final de ano do projeto Artista Residente inserido no Projeto Cultural de Escola do Plano Nacional das Artes, um projeto que abrangeu, este ano letivo, as turmas de 2º e 3º ano, e uma turma de 4º ano. Partindo do poder educativo da cultura e das artes, de transformação social e de desenvolvimento sustentável dos cidadãos, Inês Xavier, com a colaboração do Artista Residente Vítor Neno, foi a Artista Residente que trabalhou com os alunos e com os professores titulares das turmas envolvidas no projeto de Artes Performativas.

O projeto combinou linguagens expressivas e literacias múltiplas numa dinâmica de integração multidisciplinar. A Artista Residente desenvolveu processos e práticas, facultou aos alunos ferramentas e métodos, e, com o seu método, alunos e professores cruzaram linguagens e promoveram dinâmicas transdisciplinares. A Artista Residente promoveu a integração de conhecimentos, provocou a inquietação, desconstruiu e transformou esquemas conceptuais. Os alunos apropriaram-se de ferramentas (o corpo, o espaço, o tempo, a dinâmica e a relação); pesquisaram e interpretaram temáticas, e refletiram sobre elas; e, finalmente, eles próprios, experimentaram e construíram as suas coreografias. Assim, experimentaram as ferramentas, deram novos sentidos ao que aprenderam, e realizaram, com autonomia, uma composição performativa.

O espetáculo com que nos deliciaram os sentidos explorou esteticamente temas tão diversos como os ecossistemas, os elementos da natureza, o tempo ou Marcelino Mesquita e o amor, mas também a tabuada dos três ou as horas do dia, a história da árvore generosa ou a do tubarão no aquário, entre outras. Cada turma, com o seu professor, explorou de modo transdisciplinar a leitura, a matemática, o estudo do meio e o desenvolvimento pessoal e social. Quem assistiu pode testemunhar que se tratou de um raro momento de beleza que só a arte e as crianças são capazes de sublimar.

O projeto, que está no seu terceiro ano, enquadrou-se no Programa Nacional de Promoção do Sucesso Educativo, e 2023/2024 constituiu uma sua extensão ao abrigo do financiamento do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência). E, por esta razão, o meu júbilo pelos extraordinários resultados do projeto no desenvolvimento destas crianças do agrupamento de Escolas Marcelino Mesquita tem um gosto agridoce. Custa a crer que algo de tão necessário na educação – A Arte – possa estar em risco de acabar. Espero que a esperança possa vir a ser o final feliz deste projeto. E que, se o Ministério da Educação da Ciência e da Inovação não assegurar a continuidade do Plano Nacional das Artes e do trabalho dos artistas residentes nas nossas escolas, o Município do Cartaxo garanta a sua continuidade.

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Este projeto não integra o Plano Integrado e Inovador de Combate ao Insucesso Escolar da Lezíria do Tejo, mas, pela evidência da sua validade, pertinência e qualidade, bem poderia ser acarinhado pelo Município do Cartaxo. E seria ainda desejável, neste âmbito de atuação, que os municípios usufruíssem de maior autonomia local face à comunidade intermunicipal para desenvolverem o que fazem melhor, em coautoria com as suas comunidades escolares e sem dependerem de um plano pré formatado à escala sub-regional das CIM’s (Comunidades Intermunicipais).

Por último, não poderia terminar este texto sem elogiar a qualidade de trabalho dos Artistas Residentes – Inês Xavier e Vítor Neno – e fazer votos de que, em 2024/2025, de uma forma ou de outra, possamos dar continuidade à Educação pela Arte no concelho do Cartaxo. Como responde Sebastião da Gama à pergunta “Chegamos? Não chegamos?”, “Basta a fé no que temos”, “Partimos. Vamos. Somos”.

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