Este país não é para velhos

Opinião de João Fróis

Em 2005 foi um furacão violento, de seu nome Katrina, que ao praticamente arrasar a região de Nova Orleães mostrou ao mundo a miséria em que viviam milhões de norte-americanos, derrubando o mito do American Dream com estrondo. A ainda maior potência económica mundial era assim confortada com os seus pés de barro, uma multidão imensa de cidadãos a viverem no limiar da pobreza, na rua ou em cabanas, imagens sempre associadas a África ou Índia.

Por cá, foi a pandemia Covid19 a mostrar as condições de enorme fragilidade em que vivem inúmeros idosos nos lares deste país.

Até aí iam surgindo notícias esparsas do encerramento de alguns lares por falta de condições mínimas de funcionamento, mas nunca se aprofundou as reais condições de vida dos seniores que ali vivem os últimos anos das suas vidas.

A forma atabalhoada como não se definiram as prioridades na proteção dos lares e dos seus ocupantes redundou em múltiplos focos de infeção e em dezenas de mortes noutras tantas instituições de norte a sul.

Discutem-se prioridades e estratégias e agora responsabilidades, tentando determinar quem não fez o que podia ou devia para tornar os lares um baluarte seguro na proteção da vida. Por estes dias a polémica continua quente e parece não querer abrandar.

Mas a outra realidade que ficou à vista foram as enormes diferenças entre lares e as condições de salubridade, segurança e conforto dos seus ocupantes. Percebeu-se agora que muito há a fazer na supervisão destas instituições e na monitorização real das reais circunstâncias em que vivem tantos idosos deste país.

Após uma tempestade há sempre muito a reconstruir e certamente muito a aprender. Neste caso, estando ainda a tormenta bem ativa e sem fim à vista, urge agir o quanto antes e estancar esta hemorragia que não para de ceifar vidas entre os mais frágeis.

Chegou a hora de dar a dignidade à idade maior a que muitos de nós desejam e conseguem chegar. Com apoios efetivos e toda uma política global de garante de uma velhice digna, segura e com a paz que a idade pede e se aconselha e que não deixe ao poder financeiro a sorte de cada idoso.

Com o aumento da esperança de vida e com um por cento da população a almejar superar os 90 anos de idade, é tempo de fazer da velhice uma etapa da vida com dignidade e como parte ativa da sociedade.

Bem hajam todos os que trabalham afincadamente nos cuidados dos nossos seniores e lhes proporcionam um final de vida com conforto e carinho. Esses são também alguns dos heróis que a pandemia trouxe à luz.

*Artigo publicado na edição de setembro do Jornal de Cá.

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