Guerras e homens

Opinião de João Fróis

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Em pleno século XXI e o mundo continua manchado de conflitos armados. Síria à cabeça, numa guerra que se arrasta há oito incompreensíveis anos. Após imagens amplamente difundidas de ataques com armas químicas e com versões contraditórias, o tridente mais belicista da aliança atlântica decidiu intervir cirurgicamente num ataque a alvos onde potencialmente se produziam esses nefastos e repudiados agentes altamente nocivos e proibidos por convenções internacionais.

Partamos do princípio que toda e qualquer guerra é odiosa. E que mais do que identificar culpados, cumpre fazer todos os esforços na sede própria para a evitar, a ONU. Este organismo nasce da compreensão global que após a hecatombe brutal gerada pela 2ª guerra mundial, haveria que tentar estancar todos e quaisquer conflitos à nascença, levando aos limites os esforços diplomáticos e de entendimentos que evitassem o despertar das armas.

Mas a experiência diz-nos que por detrás das boas intenções que se demonstram na assembleia mundial, os conflitos continuam vivos e a exprimir o pior da civilização, nos seus desencontros e assomos da força sobre a razão.

A reflexão que aqui me traz tenta, humildemente, questionar os porquês de tanta discórdia, partindo da observação de pormenor, por entre as bombas e as manifestações inflamadas que logo brotam que nem cogumelos um pouco por todo o globo.

Numa reportagem televisiva, foram entrevistados vários sírios em Damasco, um oásis de paz numa Síria desigual e onde, por momentos, não parecia haver guerra. E o que se ouviu deveria a todos fazer-nos refletir profundamente. Entre todos os testemunhos que falaram do orgulho nacionalista, do apoio ao presidente e à causa árabe, da independência Síria e da intromissão ocidental, ouve um que me deteve a atenção. Este tranquilo habitante da capital afirmava, logo após ter criticado duramente o ataque dos misseis ocidentais, que não queria saber da guerra que assolava o país há oito anos, era-lhe indiferente e não mudava em nada o seu dia a dia. Este exemplo, seguramente partilhado por muitos outros compatriotas, revela muito do sentir e pulsar de quem vive naquelas paragens e da sua visão do mundo.

Questionei-me como era possível alguém ser indiferente a uma guerra sangrenta e amplamente destruidora no seu próprio país, ao longo de tantos anos? Com constantes bombardeamentos, milhares de civis mortos, a destruição de cidades milenares, deslocação de milhares de refugiados e imagens de sofrimento, dor e luto? Por momentos, fiquei atónito perante a crueza de tal testemunho e a falta de humanismo gritante naquele olhar frio. E juntei as peças e demais testemunhos e o absurdo agigantou-se. Definitivamente, a forma como olhamos o mundo é muito diversa e pensar que em qualquer parte do globo, ao sermos humanos, partilhamos os mesmos princípios e valores é um erro histórico e que tem levado a decisões profundamente danosas para o mundo em geral e para tantos milhares de inocentes em particular.

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Tentei pôr-me, na medida do possível, no lugar daquele sírio de Damasco. É um exercício complexo e com larga margem de erro pois crescer na Europa ou no médio oriente tem todo um mundo de distância. Muito maior que a largura do mediterrâneo. E que muito provavelmente reflete centenas ou até milhares de anos de vivências opostas.

Ainda assim arrisquei. Tentei ver-me a ser muçulmano o que de si não causa grande desconforto mas muito mais além, a crescer numa sociedade desigual, machista e controladora, onde as europeias liberdades e garantias são ali algo bem diferente. Por momentos, libertei-me do egoísmo capitalista que assola o mundo e nos embriaga a todos nesta competição desenfreada por um lugar ao sol, e tentei ver-me num país árabe, com muito pouco para oferecer de mundo e onde lutar pela sobrevivência passa muito por não confrontar o status quo e as instituições religiosas, políticas e militares que controlam com mão férrea aqueles países milenares e onde viveram, passaram e coabitaram civilizações de antanho e conheceram auras de desenvolvimento que agora mal se vislumbram entre o pó dos edifícios em colapso pelas inúmeras bombas que os devastam. Percebi que mais do que o alimento é a fé que congrega e une estes povos que aprenderam a viver no deserto e com escassez de água. Que a resiliência às agruras do meio ambiente, hostil e desafiador, são aqui as nossas serras e território desigual, onde aprendemos a viver e a lutar por um futuro melhor. Mas lá, mais do que aqui é a fé “armada”, contra os inimigos do mundo árabe que os unem e motivam, orgulhosamente, a não vergar e a continuarem uma qualquer “intifada” contra os adamastores capitalistas e opressores. O sentimento do eu contra o mundo conhece aqui uma versão muito diversa da que nos foi sendo imposta do lado de cá. Por aqui o fechamento egoísta e isolacionista do individuo deixa-o à mercê das leis de oferta e de procura para assegurar a sua sobrevivência, num mercado altamente competitivo e materialista. Por lá, muito longe do conforto destes bens dourados e da sua futilidade ofuscante, é a união na causa que congrega os povos e os unifica contra tudo e contra todos. É assim que os vemos a resignaram-se contra uma guerra intestina que aprenderam a desvalorizar, ancorando-se nos que os lideram e se arrogam os defensores das suas causas milenares e do orgulho árabe de resistência contra os opressores. É nesta deriva que os senhores da guerra se sentam confortavelmente e vão jogando as pedras num jogo interminável de ataques e defesas, geridas a compasso. A hipocrisia política e de discurso completam a encenação que os media propagam ad nauseum e as redes sociais amplificam de modo instantâneo.

Nesta dança operática e de entretenimento abjecto vai andando este mundo de blocos, tão diferente entre si e que ainda não aprendeu a baixar a guarda e a fomentar a sã convivência entre povos e nações.

Parto do princípio que cada homem nasce livre e anseia a paz. Muito do que virá a ser depende cada vez mais do lugar onde nasce e do meio onde vai aprender a ser homem e dos princípios e valores que vão constituir toda a base do seu pensamento. Muitos conseguem ver para lá destas barreiras culturais e sociais mas diz-nos igualmente a experiência que as massas continuam a ser manipuláveis e como tal, “facilmente” conduzidas, quais rebanhos, por “pastores” de causas e que os levam a tombar em mares que desconhecem e muito menos compreendem na sua totalidade.

O século XXI trouxe-nos uma profusão de informação mas no seu oposto uma cada vez mais impressiva ignorância do legado histórico, dos valores humanistas e dos direitos e obrigações que deveriam nortear, acima de todas as outras, a sã convivência entre povos. E, ainda pior, uma indiferença e desinteresse que nos deveriam a todos obrigar a parar e pensar no que estamos a semear.

A liberdade de expressão congrega, num ápice, os defensores de tudo e nada sem que se vislumbre onde pára a razão, tantas vezes. Fica a esperança na força da manifestação coletiva e na percepção que a união faz, definitivamente, a diferença e mais do que a força, faz mover quem a detém e urge fazer mudar, para o bem de todos, nos seus impulsos belicistas. A paz tem e deve ser alimentada por todos, nos mais pequenos gestos e exemplos. O futuro depende de todos eles.

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