Hoje, sabemos mais que ontem (VI)

Crónica de José Caria Luís

Enquanto tenho andado a tentar fintar o Covid, eis que o destino, aproveitando-se da minha distração, contemplou-me com uma espera de seis meses por uma cirurgia oftalmológica que deveria ter sido realizada em abril. Não foi em abril, mas foi em setembro… Não satisfeito com isso, esse tal destino, ainda veio presentear a minha companheira com uma brutal queda caseira, a qual se traduziu numa dupla fratura do úmero e omoplata. Tudo isto em simultâneo. Mas ainda havia mais, já que o meu filho – apesar de não fazer parte do agregado – também não se livrou de uma apendicite. É claro que hoje, sábado, – no dia em que escrevo o texto – de modo a compor o azarado ramalhete, e conferido que foi o boletim da Santa Casa, nem um só número ou estrela no €uromilhões. Bruxedo? Não creio nisso, mas se elas não andam por aí, mais parece. Como muito bem sentenciou um antigo governante deste país, também eu digo: – É a vida!…

Bem, mas como a vida é o momento, há as idas e as vindas. Por isso, recorrendo às memórias dos tempos do antigamente, para a grande maioria dos jovens, a vida era mesmo muito difícil. Com especial relevo para aqueles mancebos que, depois de se terem ido rebaixar ao pai da conversada, pedindo autorização para namoriscar, à janela ou ao postigo da velha porta de madeira, e depois de escutarem um longo sermão do progenitor, em forma de retórica, a tender para a ameaça, ainda tinham de sofrer durante muitos meses, se não anos, com o declive térreo, ora enlameado ora poeirento, onde se poisava os calcantes. Isto, além das agruras da intempérie, sempre que geava ou chovia. No mínimo, acho que o rapaz, por força da imposição tinha de fazer o papel de um qualquer sem-abrigo, teria direito, no mínimo, a um pedestal nivelado onde poisar os sapatos. Aquele que tinha bicicleta, namorava montado nela (bycla), mas isso poderia trazer engulhos, já que tinha de estar permanentemente com uma mão ocupada no travão e a outra agarrada ao peitoril, suportando o corpo, não fosse a máquina deslizar para o abismo. Seria por isso que, de modo a evitar o desconforto, algum rapazola mais desinibido, atrevido, e valendo-se da inevitável conivência da moçoila que lhe pegava pelos fundilhos, pulava para o interior, onde corria grandes riscos por invasão de casa alheia. Em simultâneo, arriscava-se a ver a sua bicicleta surripiada pela mão de um qualquer bacano despudorado, daqueles mirones que se escondiam na penumbra, não só para deitar o olho, mas, também, deitar a mão ao alheio. A par disso, expunha o seu esqueleto a uma severa deformação por estrangulamento num postigo sem largura suficiente para o bom desempenho da função. A operação era tão complexa, com tal grau de adrenalina, que o rapaz, ainda que movido pela ansiedade, mais lhe valia que permanecesse de fora, montado no selim. Na verdade, muitos postigos daquelas velhas portas eram por demais estreitos, não muito superiores ao postigo de um depósito, pese embora o treino que alguns deles faziam, durante a semana, numa qualquer adega da terra.

Mas, nos tempos do meu avô, sem bicicletas, como era?

*Artigo publicado na edição de novembro do Jornal de Cá.

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