O Legado

Opinião de João Fróis

Sem pretensiosismos dirijo a minha atenção para toda a minha geração e que vive diariamente dos maiores desafios sociais e civilizacionais do pós-guerra. Não são mediáticos, não ocupam escaparates das grandes publicações mas têm grande impacto nas vidas de milhões, de formas que ainda é difícil percecionar e até compreender em toda a sua dimensão ética, social e cultural.

Quem nasceu nos anos 60 e 70 do séc. XX cresceu num mundo bipolar, em clima de guerra fria mas onde se vivia uma estabilidade aparente, assombrada por um espectro longínquo de um eventual conflito entre blocos e potências, mas que chegava filtrado e pouco impactante através de meios de comunicação a anos luz da velocidade vertiginosa atual.
Em Portugal vivia-se o fim de um ciclo e entrava-se na democracia, com as dores próprias de um parto complexo e que só estabilizaram verdadeiramente nos anos 80 com a entrada na CEE e nos novos rumos que se abriram a este país, até aí a sarar feridas de uma guerra colonial e em busca de uma nova identidade modernista e revolucionária após mais de 40 anos de ditadura e fechamento ao mundo e aos avanços tecnológicos e económicos.

A abertura a novas oportunidades foi então sedenta e nessa senda foram muitos os oportunistas e menos os que investiram sustentadamente em alicerces para o futuro que se adivinhava. Desperdiçaram-se milhões em apostas mal direcionadas, mas vivia-se em clima de euforia por finalmente estarmos a entrar no famoso comboio europeu e entrarmos assim na idade moderna da sociedade de consumo. Lembro que o primeiro hipermercado abriu em Portugal, na Amadora, nesse “longínquo” ano de 1985. As filas foram tremendas e duraram dias até normalizar o tráfego na zona. Abriu o shopping Amoreiras nas suas torres de vidro espelhado, um advento de modernidade bem assente nas colinas da capital, a mostrar a quem duvidasse que Portugal estava finalmente no rumo certo. A construção civil viveu tempos dourados e nasceram cidades satélite como cogumelos, atraindo populações sedentas de oportunidades onde começavam a despontar e que para tal se iam fixando numa lógica de proximidade aos centros de decisão. O advento do turismo disparou e o Algarve durante anos foi um estaleiro a céu aberto, criando estruturas hoteleiras a um ritmo que não permitiu um planeamento sustentado e realista, desfigurando uma região até então longe do turismo massivo que já ia despontando noutros pontos do planeta.

Nesta realidade os desafios de acompanhar o advento da modernidade foram tremendos e se hoje se fala em dificuldades e crise, engane-se quem pensa que foram tudo rosas para quem se queria lançar no mercado de trabalho. O desfasamento entre a academia e as empresas era evidente e ainda hoje é notório, havendo melhorias substanciais mas ainda longe do que idealmente é expectável. O mercado evoluía entre as muitas oportunidades que se abriam e estruturas empresariais ainda rígidas e a viverem algo que na época não era ainda evidente e que se tornou duramente real anos mais tarde, o fim de uma era de expectativas sustentadas, de manutenção da ordem natural das coisas sem grandes alternâncias nem crises identitárias que pusessem drasticamente em causa os sonhos e legítimas expetativas de que o futuro era “garantido”. Na verdade estávamos já a viver a queda desse mito que durante anos se foi alicerçando na paz pós-guerra e na tranquilidade social que se instalou em estruturas sólidas dos estados, garantindo segurança aos trabalhadores e uma saudável paz na gestão das suas vidas.

Exemplo demonstrativo da mudança é também a denominação que se dá aos recursos humanos. Antes e bem alavancada por estruturas sindicais galopantes junto das indústrias e estruturas do Estado, sempre fomos “trabalhadores” e/ou funcionários para agora sermos “colaboradores” em pleno. Efetivamente hoje como nunca ser colaborador faz sentido face à rotatividade de funções, empresas, locais e realidades multidisciplinares em que vivemos. Esta geração que tem hoje 40 ou mais anos está a viver uma travessia entre dois mundos separados por uma distância bem maior do que seria expectável no advento da sua entrada na vida ativa.
Os famosos “empregos para a vida” acabaram e só já existem para a última geração de funcionários do Estado e cada aposta em qualquer projeto é definitivamente uma carta fechada em que o futuro é uma incógnita. Ninguém pode ou consegue arriscar se a empresa onde trabalha irá existir daqui a cinco anos e cada crise financeira que assola o mercado e põe em causa o investimento tem repercussões dramáticas nas vidas de milhares de pessoas que legitimamente aspiravam a ter alguma serenidade nas suas vidas na fase em que se encontram.
Inversamente são confrontados com a necessidade de equacionar vários cenários, partir para novos rumos e arriscar o futuro longe de casa, muitas vezes da família e sem quaisquer garantias que o esforço será recompensado..

São tempos de extrema violência emocional e psicológica. Desafiantes a níveis desconhecidos para grande parte de nós, que obrigam a pôr tudo em causa e (re)começar vezes sem conta, projetos de vida, de família, de sonhos que se afiguram cada vez mais miragens.

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Diametralmente vive-se uma aparência de facilidades assentes nas luzes fantasmagóricas dos dispositivos eletrónicos que enchem a noite de potenciais comunicadores/alvos e sempre ativos, disponíveis, interligados a um mundo virtual, à distância de um toque num ecran luminescente…

A economia digital está aí em força e o seu impacto já é presente e bem real em todas as estruturas empresariais e no modo como se gerem os negócios e se recriam as próprias empresas. Estar online já não é apenas cool, é crítico para a própria sobrevivência da empresa, do projeto e como tal, das expetativas de quem nele trabalha e assenta a sua sobrevivência.

Esta geração nasceu num tempo ainda assente em premissas pré-revolução tecnológica, onde a força de trabalho era feita com muitos recursos humanos, com papel e estruturas organizacionais burocráticas e lentas, perpetuadas no tempo e enganadoramente estáveis e promissoras. Assistiu às mudanças políticas e económicas geradas nos novos ventos de uma Europa moderna e pretensamente inclusiva, promissora de sonhos e geradora de confiança no advento do velho continente. Adaptou-se, recebeu de braços abertos as telecomunicações e as potencialidades de estar ligado, em qualquer lugar, à rede crescente de utilizadores sempre disponíveis e conectáveis. Essa transformação acelerou dramaticamente as nossas vidas pois se antes telefonar exigia que a pessoa estivesse perto do aparelho, agora o aparelho estava sempre com o seu utilizador e a urgência de respostas tornou-se um cavalo de batalha da nova economia, sedenta de resultados, de números, de balanços, de projeções e estimativas. Controlar a informação tornou-se imperioso e essa adaptação foi feita, nem sempre bem é certo, mas a velocidade a que as novidades foram chegando logo obrigou a novas transformações e aprendizagens. Vieram os dispositivos online, sempre ligados a tudo e todos, a toda a hora e em qualquer lugar e num ápice o mundo ficou literalmente na “palma da mão”… aparentemente mais perto mas verdadeiramente compreensível?

Esta geração é também aquela que está a educar os jovens que serão os decisores do amanhã que está aí a chegar e a sua responsabilidade enquanto matriz de valores e princípios culturais, éticos e estruturantes da construção de personalidade é enorme. os jovens estão a crescer num mundo tecnológico onde tudo parece ser possível e estar à distância de um motor de busca na imensa web. Ir mundo fora é hoje possível e até exigível para obter conhecimento e “skills” num mundo cada vez mais partilhado e global. As fronteiras físicas onde a geração dos agora quarentões cresceu, foram transformadas e são agora não muros mas portas de entrada para novas oportunidades e desafios. Hoje ir procurar longe o que não há perto tornou-se quase vulgar mas não para pessoas diferentes, de gerações diferentes e com expetativas e capacidades diversas. Ter 20 anos e ir mundo fora é sair em busca de conhecimento, de aprendizagem, ter 40 ou mais é ir em busca da sobrevivência que lhe foi negada no país de origem. É nesta dramática senda que vivem hoje milhares de pessoas, entregues a desafios constantes de se manterem firmes e imunes às muitas pressões a que são sujeitos e ao mesmo tempo saberem dar o exemplo aos seus filhos, criando verdadeiros cidadãos, integrados e capazes, conscientes do mundo em que estão a crescer mas com uma estrutura mensal e valorativa forte que lhes permita serem baluartes destes novos tempos onde a humanidade está a ser desafiada dentro de cada um de nós!

Esta geração é portadora de um legado inestimável e que irá marcar indelevelmente o futuro das próximas gerações. A transição entre eras está a ser feita por toda uma geração de pessoas que cresceu a sonhar com um mundo possível, onde os sonhos seriam em boa parte alcançados face a tantas expectativas e foi caminhando e aprendendo entre desafios constantes, perdas e crises regulares, inquietações omnipresentes e injustiças banalizadas pela massificação da informação. Nunca como hoje o impacto de qualquer ação foi tão perene e passageiro. A quantidade de informação e conteúdos, de opiniões e ideias é avassalador e faz de cada um de nós uma ilha dentro de gigantescos arquipélagos de milhões, interligada mas não menos isolada e entregue à sua persistência e confiança inabalável para poder merecer um lugar ao sol.

Saibamos todos fazer este percurso de transição pois ainda muitas mais transformações estão a chegar e provavelmente, muitos dos cenários e projetos que hoje singram não estarão cá dentro de dez anos. A interpretação destas mudanças e a forma como rapidamente nos adaptamos é crucial para poder sobreviver. E para tal, ter uma personalidade forte e bem estruturada, assente em valores solidários e participativos, com grande disponibilidade face a crescentes desafios é determinante. E ter essas características e qualidades só é possível se forem passadas ás gerações vindouras, todos os dias, com confiança e amor, com paixão e fé num futuro que se quer melhor e em que se possa viver em pleno e não apenas sobreviver. É esse o nosso legado. É esta a nossa grande missão nesta irrepetível transição histórica entre mundos e que ira moldar os rumos do futuro!


 

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