O dia da ‘Espiga’

Por Ana Benavente

É feriado no Cartaxo e em mais 28 municípios, do norte ao sul do país.

As tradições, feitas e refeitas, são tão importantes que, mesmo na cidade, com passeios de pedra e sem campo, quem conheceu o dia da espiga procura o seu ramo. Eu guardo um e ofereço à minha volta. E penso nas quintas-feiras em que íamos, em grupos, até às “mesas”, à entrada do Cartaxo, na estrada de Lisboa para apanhar o “raminho”. Há quem diga que se deve guardar atrás da porta de um ano para o outro, mas em minha casa – e eu continuo – pendura-se na chaminé e ali fica a secar até ao ano seguinte.

O dia da espiga é uma festa anterior à era cristã, praticada em todos os países do mediterrâneo. Celebra a primavera e consagra a natureza. A Igreja “cristianizou-a”, fazendo-a coincidir com a quinta-feira da Ascensão. Já foi feriado nacional, mas deixou de o ser em 1952 – será que também então se reduziram feriados, retirando marcas da vida coletiva? Não sei, mas continua a ser, com feriado ou sem ele, uma data feliz.

O que compõe então o ramo da espiga e que sentido tem cada elemento?
A espiga (de trigo, de centeio, de cevada), significa o pão (que não nos falte o alimento); os malmequeres são o ouro e a prata (por isso apanhamos amarelos e brancos); a papoila significa o amor e a vida (ligados, pois claro); a oliveira simboliza o azeite, a paz e a luz; a videira significa o vinho e a alegria; o alecrim (às vezes o rosmaninho) traduz a saúde e a força.
Nesse dia também se colhiam ervas aromáticas e medicinais.

Que belos e fortes símbolos, sempre atuais. Podemos acrescentar ao ramo a cidadania, mas esse é o significado do ramo todo.


Texto publicado na edição impressa, nº38, da Revista DADA (2012, nesse ano o feriado foi no dia 17 de maio)

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