O direito à nossa essência

Opinião de Afonso Morango

A educação desempenha um papel fundamental no funcionamento da sociedade. No entanto, ao longo da História, este proclamado direito humano tem sido alvo de manipulações e vitupérios que põem em causa a sua genuína essência.

Ditadores sempre apreciaram auditórios ignorantes, um público bem mais recetivo às suas falsas promessas. Segundo vários pensadores dos nossos e de outros tempos, a ignorância é a primordial causa de inúmeras disfuncionalidades que experimentámos ao longo dos séculos passados. O Conhecimento sempre foi temido por muitos homens perigosos e, já desde os ostentosos tempos das monarquias absolutistas, as minorias letradas pautavam as vidas da restante população predominantemente analfabeta. Em 1789, o povo despertou e, por breves instantes, houve esperança. No entanto, os filhos da revolução voltaram a cair e, embora a História nunca se repita, uma centúria e meia depois, as circunstâncias de uma Alemanha humilhada em Versalhes ajudaram à ascensão de uma nova voz no Partido Nacional Socialista que se insurgia no meio de uma sociedade desorientada. Esta voz atordoou o mundo inteiro e a Europa atravessou os anos mais penosos em toda a sua longa narrativa.

Em pleno século XXI, perante uma Humanidade mais acelerada, opulenta e desenvolvida que nunca em diversas áreas, ainda são muitos e inquietantes os desplantes pela educação. Não deixa também de ser peculiar a escalada de populismos e pensamentos chauvinistas um pouco por todo o Velho Continente, o berço da instituição que nasceu no século XI e que permitiu ao mundo girar a um novo ritmo alucinante. As Universidades transformaram a nossa vida e o amor pela Natureza e a curiosidade incessante das populações europeias, herdeiras do naturalismo aristotélico, estiveram na base da mudança de pulsação da Humanidade.

No final de contas, somos a maior geração de sempre, todos nós. Este coorte coletivo da raça humana contém em si todo o conhecimento coletivo de inúmeras criações e investimentos humanos passados e deveria ser um direito, uma escolha de todos, poder ter acesso a esse mais belo repositório do Homem. Nunca se sabe de que parte do mundo poderá vir uma nova adição a esta magnífica coleção e, num mundo de informação constantemente disponível, um livro nas mãos de uma criança nunca foi tão poderoso.

Somos criaturas profundamente criativas. Ainda que sejamos como toda a vida na Terra, a nossa capacidade de inovação e imaginação sem fronteiras levou-nos mais longe que qualquer outra espécie. Não vivemos no mundo como todas essas outras criaturas, mas talvez devêssemos mais do que temos feito. Sempre criámos ideias sobre o mundo e as mais diversas línguas, teorias, filosofias e sentimentos são expressas através das díspares culturas onde as pessoas florescem. Mas, para isso, é necessário reconhecer e explorar a individualidade e a diversidade. Nenhuma criança deve ser deixada sem investimento, porque todas elas nascem curiosas e criativas. O grande desafio está em fomentar e manter esses traços enquanto crescemos.

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*Artigo publicado na edição de outubro do Jornal de Cá.

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