O primeiro edifício público do Cartaxo em Democracia

Bagos da Memória, por Pedro Gaurim

Em 1980 foi inaugurada a Escola Secundária do Cartaxo, correspondendo a um enseio de décadas e a uma política de descentralização do ensino médio, acelerada no processo democrático. Esta Escola foi o primeiro projeto no Cartaxo, em Democracia, com significado social e impacto arquitetónico, promovida pela administração direta do Estado.

O Cartaxo desde 1966 aspirava a ter Ensino Secundário, mas o processo que decorria entre o município e o Governo, só alcançou o seu objetivo em 1980. Deve-se referir a tenacidade e iniciativa do Senhor Presidente da Câmara Dr. Renato Campos e do apoio financeiro americano. Este facto conduziu à ideia generalizada de que o modelo da escola era americano, e que o projeto teria vindo “tipo chapa 3” dos EUA.

Anteriormente, a população local que pretendesse fazer os estudos secundários deslocava-se para o liceu Sá da Bandeira em Santarém, para as Escolas Comercial e Industrial ou para os colégios privados dessa cidade, ou ainda, para regimes de internato, particularmente em Lisboa e no Colégio Nun’Álvares em Tomar.

Ao longo dos seus 44 anos, teve várias intervenções de melhoramentos, conservação e ampliação, tendo sido a mais significativa por volta de 1995, quando se construiu o edifício no canto que confronta com a rotunda da Quinta das Pratas (oficialmente Rotunda de Pucioasa) e as mais recentes, um grande investimento de mais de 2 milhões de Euros, terminadas em 2023, noticiadas no Jornal de Cá de 23 de Setembro desse ano.

Esta obra arquitetónica de projeto pavilhonar (o modelo de arquitetura construído por pavilhões já tinha sido experimentado no Cartaxo na Escola Preparatória em 1970 e em modelos industriais a partir da década de 1960), foi construída em terrenos da antiga Quinta das Pratas, adquirida em 1979 pela Câmara Municipal do Cartaxo, aos herdeiros do antigo Ministro das Colónias Francisco Vieira Machado. Esta escola tem sido bastante acarinhada ao longo dos anos, deixando na vivência do espaço uma boa memória a alunos, professores e funcionários que se estende para além das relações interpessoais da experiência escolar e que está relacionada com a qualidade arquitetónica. Para isso, também contribuiu o complexo desportivo e cultural adjacente da Quinta das Pratas, desenvolvido em volta da Residência, Adega e Celeiro, ao longo das décadas de 1980 e 1990.

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Na segunda metade do século XX, o Cartaxo foi enriquecido com obras de arquitetos de renome, devido à construção de numerosos edifícios de equipamento público, como a Junta Nacional do Vinho (1936), o Mercado Municipal (1947), a Enfermaria Abrigo, os Correios, o Pavilhão do Inatel, o Ateneu Artístico Cartaxense, o Tribunal, as escolas preparatórias e secundária, os dois edifícios da Caixa Geral de Depósitos e do Banco Nacional Ultramarino, os Bombeiros Municipais e a Câmara Municipal, a casa do Povo, o Tribunal, o Centro Cultural, de onde se destacam nomes importantes da arquitetura nacional como João Simões, Eduardo Paiva Lopes, Francisco Cunha Leão, Luís Bevilácqua Nunes, Francisco Graciano Botelho de Sousa, Raúl Rodrigues Lima, João Paciência, Cristina veríssimo, Diogo Burnay, entre outros.

Foi a existência destes edifícios que deu autonomia à vida municipal e está na hora de começar a pensar no seu estudo histórico e na sua classificação, para futura proteção. Esta proteção devia estender-se a exemplares de arquitetura que vieram de séculos anteriores, e dos quais (ainda) não sabemos quem foram os seus autores, designadamente a Igreja Paroquial, a Capela dos Senhor dos Passos, a Capela do Santo Cristo (todos dos séculos XVII/XVIII), a antiga Câmara Municipal (depois GNR), o Hospital de Santa Cruz (cerca de 1820) e o Fontanário (1889), a Praça de Touros (1874), o Cemitério Municipal (1878) e respetiva capela. Todos estes e mais alguns na cidade e nas freguesias, são edifícios que tiveram o seu desenho, o seu projeto com desenho de qualidade que ainda mantém bastante integridade.

Arq. João Paciência e Pedro Gaurim na Academia Nacional de Belas Artes

O projeto da Escola Secundária do Cartaxo é da autoria do arquiteto João Paciência, uma personalidade de renome no panorama arquitetónico contemporâneo. João Paciência nasceu em Mora em 1943. Foi diplomado Arquiteto em 1970 pela antiga Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, hoje Faculdade de Arquitetura e Faculdade de Belas Artes, ambas da Universidade de Lisboa. Nessa Escola e na Universidade Lusíada foi professor assistente da cadeira de Projeto, na passagem das décadas de 1980 para 1990.

A Escola Secundária do Cartaxo foi um dos primeiros projetos deste arquiteto que viria a ser o autor de emblemáticos edifícios como o Atrium Saldanha (1991-1993), onde fez equipa com o arquiteto catalão Ricard Boffil (1939-2022), o Saldanha Residence (1993-1999), o Hotel Sheraton (1994-2003) do Porto, estando em fase de acabamentos, o Hotel Melia no gaveto da Av. Fontes Pereira de Melo com a Av. António Augusto de Aguiar em Lisboa. Realizou projetos para Angola e Argélia nos anos 2000. Tem 2 prémios Valor em Lisboa e o Prémio Cidade de Almada. Em 2006 recebeu a comenda da Ordem de Sant’Iago e Espada pelos méritos artísticos.

Neste âmbito, tivemos a oportunidade de conversar com o arquiteto João Paciência, a quem muito agradecemos a disponibilidade e contribuição no registo desta memória. Clique aqui para ler a entrevista.

 

*Pedro Gaurim escreve segundo a antiga ortografia.

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