O alcaide-mor do Cartaxo – aio do príncipe D. Afonso

Por Rogério Coito

D. Isabel de Mendanha, fundadora do convento do Espírito Santo no Cartaxo em 1525, casou com D. João de Meneses, irmão do 1º conde de Cantanhede, um dos fidalgos mais estimados do seu tempo. Foi agraciado com vários títulos, entre os quais o de alcaide-mor do Cartaxo. Este matrimónio que não teve descendência directa, foi um dos grandes impulsionadores da mensagem de S. Francisco de Assis, o santo dos pobres que o novo Papa invocou, tanto que a benemérita senhora fez doação da sua quinta, no local onde está hoje instalada a Câmara Municipal e terrenos adjacentes, para que aqui fosse construído um convento a ser habitado por frades da Ordem de S. Francisco.

Dizem que D. João de Meneses estava em Aljezur quando numa terça-feira lhe chegaram cartas de D. João II e de seu filho Afonso de quem era aio, pedindo a sua comparência na Corte que estava em Santarém. Partiu a uma terça-feira, demorando oito dias a chegar. E daí a uma outra terça-feira, foi com o príncipe, o aio castelhano e outros elementos do seu séquito, cavalgar para as margens do Tejo na zona de Alfange e com tanta infelicidade que o príncipe cai do cavalo e morre. Tinha 16 anos.

Este príncipe não era só o herdeiro do trono de Portugal. Filho amado de D. João II, que em sua honra tinha baptizado a mais pequena ilha do arquipélago de S. Tomé, tinha para ele traçado a união dos reinos ibéricos sob a alçada de Portugal com o seu casamento com a filha mais velha dos reis de Castela e Aragão, que haveriam depois de formar a Espanha. Por isso a sua morte tem levantado tantas suspeitas, que até hoje não encontraram respostas para o corte deste sonho real.

D. João de Meneses ficou traumatizado para o resto de sua vida. Retirou-se da Corte e só por grande insistência do rei aceitou servir em África (Arzila e Azamor). Tomou as terças-feiras como dia aziago e nesses dias recusava-se a fazer “alguma cousa”. Em Azamor, depois de uma encarniçada batalha perdida, não mais saiu de casa. O rei D. Manuel I que herdou o trono, mandou emissários visitá-lo com palavras jubilosas e agradecimentos pelos serviços prestados. Mas ele não mais quis levantar-se da cama e assim quis morrer.


Rogério Coito é historiador e escreve segundo a antiga ortografia, este texto foi publicado na Revista DADA nº45, edição impressa de agosto de 2013


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Imagem em destaque: No dizer de Maria Amélia Timóteo, num trabalho académico de 1990 para História de Arte, o cruzeiro manuelino no alpendre junto à igreja matriz feito em pedra “tipo Ançã” (Cantanhede), pode ter sido uma herança cultural da ligação de D. João de Meneses ao Cartaxo. A sua localização tem variado ao longo dos tempos e a última mudança está datada de 1869.

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