Os dias das mulheres

"Lá Pela Terra", por Vânia Calado

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A sua figura enganava quem, sem a conhecer, a tomava por frágil. Faziam sempre isso. Afinal era mulher, pequena e magra, não esperavam muito mais do que fragilidade. Era isso que lhe ficava bem.

Ela, a trabalhar desde que se lembrava, assumia essa imagem que tinham dela. Fez isso tantas vezes que a tomou por real. Era tal como diziam.

Uma miúda. Antes dos trinta já tinha dois filhos e o terceiro estava a caminho. Nada de extraordinário, algumas da sua idade já tinham mais bocas para alimentar. E ela, com dois, ainda se aguentava bem. Quando chegasse o terceiro ela logo via como se arranjava.

Trabalhava no campo e no que conseguia arranjar. Era preciso pagar a comida que ia para a mesa. Mais o conduto, que as batatas e as couves vinham da parte de trás da casa. Mas o bocadinho do touchinho e o chouriço é que davam o sabor. O resto vinha do chão que ela e o marido semeavam. Os dois, por igual. Embora ele tivesse o dobro da sua altura e a força de uns quantos homens.

Os pais, com o corpo desfeito do trabalho que não poupava ninguém e os bolsos vazios da reforma que nunca chegou, ocupavam o outro quarto da casa. Era responsabilidade dividida com os irmãos, mas ela era a mulher. E a mais nova. Tinha-lhe calhado a responsabilidade e ela, que sabia o que era esperado de cada um, nunca tinha criticado. Ela preparava-lhes a comida, a roupa, contava os trocos para que fossem ao médico. As suas contas nunca davam em somas.

E depois eram os miúdos. Um sem fim de preocupações. Dois rapazes. Podia ser que ao terceiro viesse uma rapariga que a ajudasse ao fogão ou a passar um pano pelo chão daquela casa. Os seus joelhos já estavam calejados de tanto esfregar. Uma a limpar e tantos a sujar dava sempre em contas que nunca batiam certo.

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Fazia os seus caminhos de cesta à cabeça. Costas o mais direitas possível que as dores já se tinham tornado rotina. E assim levava os seus avios e a comida que lhe confortava o estômago no campo.

Em casa, era o jantar que ia à mesa a horas certas quando todos já estavam sentados à sua espera. Sem um agradecimento nem sequer um elogio. Ela também não os queria. Obrigação não é para ser elogiada.

Chegava à cama quando a noite já estava perto de terminar e deixava-se dormir o pouco a que tinha direito. Já nem sonhava. Só ficava ali, num limbo que mal chegava a descanso. A manhã seguinte era outro dia, em tudo igual ao que terminava e a todos os outros.

Quem olhava para ela achava-a frágil. Nunca a conseguiram ver como ela o merecia e ela nunca percebeu o quanto lhe deviam.

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