Os registos de outros tempos

Lá Pela Terra, por Vânia Calado

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Foi sempre assim. Eram elas que desapareciam sem que se percebesse que era isso que estava a acontecer. O sobrenome que se esconde depois do casamento. Antigamente, perdia-se sem deixar certezas sobre se alguma vez tinha chegado a existir.

As mulheres eram fantasmas. Ainda antes de entregarem o corpo à terra tornavam-se naturalmente invisíveis. Era o esperado. Ficavam presas a alcunhas que saltavam das bocas da aldeia para os registos que se faziam. Um só nome no baptismo. A alcunha como sobrenome nos seguintes. No casamento. Na morte. Nos nascimentos dos filhos que quando nasciam elas tinham a mesma sorte.

O seu nome associado ao nome da mãe. Lá ia a Maria, filha da Adelaide, que com o tempo se tornava a Maria Adelaide. Primeiro e último nome escrito na letra trabalhada do padre que registava o seu casamento.

Só mulher. Sem história nem legado que se colasse ao nome que vinha do pai. Sem sobrenome que identificasse a família da mãe. Uma mulher sozinha naquele mundo de primas e primos que só se identificavam de cara, nunca por registo. Mas elas não sabiam ler. Sabiam lá o que estava ali escrito. E mesmo se soubessem que estava escrito assim, sem sobrenomes de herança, não era nada que lhes preocupasse. Eram todas Marias da Adelaide que, por sua vez, já tinham sido Adelaides da Glória. Era o que era. A identidade perdida para o futuro. Por muito que tivessem sido reconhecidas por todos os que viviam na sua altura. No tempo em que tinham vivida. Nada para além disso.

Vidas que quase se tornaram anónimas para a eternidade. Do convívio da vida podre do dia-a-dia ficou a lembrança na memória de quem já morreu. Para os que vieram mais tarde, não se deixou mais do que um registo sem sobrenome, perdido no meio dos assentos de batizados onde só aparece o primeiro nome do rebento e o nome completo dos que o trouxeram ao mundo.

As mulheres, essas, tinham direito ao nome pelo qual a terra as conhecia. Nada mais ficava escrito.

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